O cheque-mate de Theresa May

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“It’s weird: The leader of the Conservative Party in England is two years younger than me, and I still don’t really feel like a responsible adult.” Jarvis Cocker

No torneio de ténis de Wimbledon, que anima o sul de Londres por estes dias, mudam-se as bolas com que se joga a cada nove jogos. A razão para isso é que depois de nove jogos as bolas de ténis começam a ficar gastas e perdem direcção. O processo de extração do Reino Unido da União Europeia (vulgo Brexit) está nesse ponto: a precisar de novas bolas e direcção.

Na sexta-feira passada foi organizada uma reunião extraordinária do Governo britânico em Chequers (a casa de Verão do primeiro-ministro/a), para tentar chegar finalmente a um acordo sobre a futura relação comercial entre o Reino Unido e a União Europeia. Com o governo dividido exactamente ao meio entre os que favorecem laços mais estreitos com a Europa e os que seguem a velha tradição Tory de preferir o comércio global ao continental, a tarefa tem-se revelado tão difícil como meter o PCP e o PSD de acordo sobre as vantagens da troika.

Para mostrar à sua equipa que ela desta vez estava ao comando, a senhora May introduziu uma regra para os ministros que se reuniram em Chequers: todos tiveram de deixar os seus telemóveis e relógios smart à porta, para evitar fugas de informação para a comunicação social. A equipa da primeira-ministra deixou igualmente bem claro, pela primeira-vez, que ninguém saía de Chequers até haver um acordo e que quem não gostasse seria demitido ali imediatamente. Foi uma versão adulta do “não comes a pizza antes de fazeres todo o trabalho de casa”, em que os adolescentes são Boris Johnson, Michael Gove, Liam Fox e David Davis (os principais apoiantes do Brexit no governo).

Até aqui Theresa May veio a adiar constantemente este momento, sendo ridiculizada inclusivamente pela própria Angela Merkel. Se bem que May seja uma figura fraca como líder, ela está numa posição impossível que qualquer um dos seus colegas europeus não invejariam: tem de conseguir um acordo que agrade ao mesmo tempo ao país, às duas facções do seu partido, à oposição, ao sector empresarial e a Bruxelas, sendo que nenhum destes lados tem uma atitude menos que evangélica. Esta é uma arena em que ninguém tem sido pragmático desde o ínicio do processo do Brexit em 2017, incluindo a própria União Europeia (UE).

A solução que Theresa May apresentou ao seu gabinete nesta reunião de Chequers tem o nome de Single Standards Model e foi vendida por ela não só como uma terceira via entre o que as facções pró-EU e anti-EU querem, mas como a única forma possível de desbloquear as negociações com Bruxelas. Na essência contém: regras comuns para todos os produtos e convergência com as leis da UE no mercado único de mercadorias, mas divergência no mercado único de serviços (muito mais importante para o Reino Unido, dada a primazia global neste sector da City de Londres). A proposta veria o Reino Unido cobrar tarifas em produtos importados, a uma taxa ditada pela União Europeia. Ao mesmo tempo o governo britânico ganharia o direito de negociar acordos comerciais com outras nacões fora da UE. Fundamentalmente implicaria ficar numa espécie de união aduaneira com a Europa, resolvendo o problema da fronteira na Irlanda do Norte. Chame-se a isto um Brexit muito, muito light, lighter than Diet-Coke, uma reversão considerável dos anteriores limites em que a senhora May não aceitava conceder.

Os problemas começam exactamente aqui. Os Fab Four do Brexit (Boris, Liam, Michael e David) não podem concordar com uma proposta que, na realidade, equivale ao Reino Unido continuar no mercado único de mercadorias, porque isso iria contra tudo o que prometeram em público desde a campanha para o referendo em 2016. David Davis e Boris Johnson foram os primeiros a demitir-se já esta segunda-feira. Mas estes Brexiteers teem visto a sua posição neste xadrez político enfraquecer substancialmente ao longo do último ano e na prática não podem fazer muito mais do que demitirem-se. Primeiro, se levarem a um cenário em que o Reino Unido não chega a acordo com a União Europeia, isso levaria a uma revolta no Parlamento e a novas eleições (e um potencial novo governo dos Trabalhistas de Jeremy Corbyn, o último resultado que os Conservadores querem). Segundo e talvez mais importante: mesmo que um deles queira desafiar a liderança de May através de um voto de confiança, nenhum deles tem a maioria de deputados necessária para derrotar a primeira-ministra. De acordo com as regras do Partido Conservador britânico, os deputados teriam de esperar um ano para uma nova moção de confiança, portanto um falhanço à primeira tentativa só fortaleceria May. Podem no entanto votar contra legislação fundamental do Brexit no Parlamento e tornarem a vida de May num inferno.

Quando Theresa May se reuniu na semana passada com Angela Merkel terá precisamente dito a Merkel que esta ia ser a melhor oferta do Reino Unido mas também a final, ou seja que a bola agora está com Berlim e Bruxelas para evitarem o caos mútuo de verem o Reino Unido sair da União Europeia sem um acordo comercial com o velho continente. Entre as linhas espera-se que Merkel agora pressione a Comissão Europeia a não ser tão rígida e a abrir a porta a um acordo final com o Reino Unido. Merkel sabe que o Reino Unido é o maior mercado europeu para muitos produtos alemães e também que a colaboração dos britânicos nas áreas da defesa e segurança é essencial para o velho continente. No entanto, a política dentro da Comissão Europeia é extraordinariamente complexa e ninguém garante que Bruxelas não continue a exigir mais do Reino Unido, levando eventualmente a uma rotura total das negociações.

Claro que o grande cisma e confusão do Partido Conservador britânico sobre a questão europeia está longe de ser resolvido e continuará ao rubro muito depois da saída do Reino Unido da União Europeia. A ascenção de Theresa May ao cargo de primeira-ministra foi criada por esta confusão. A confusão foi renascida pela irresponsabilidade com que David Cameron lançou o referendo (sem planear propriamente para todas as possibilidades, como advertiu na altura o seu Ministro das Finanças, George Osborne) e o diletantismo de políticos como Johnson, Gove, Fox e Davis que pensavam que extraír o Reino Unido de um acordo político e comercial de quarenta e cinco anos com a União Europeia seria tão facil como um jogo de cricket no Verão inglês. May foi o cordeiro sacrificial que tem ao menos tentado criar algum bom senso e pragmatismo no meio deste caos amador. Nao é de todo impossível que, no futuro próximo, o Partido Conservador se divida em dois, como nos confrontos do século XVIII e XIX entre os Whigs e Tories. Por exemplo, mesmo que agora um elemento pró-Brexit substituísse May num desafio de liderança, teria sempre metade do partido contra. Este é virtualmente um beco sem saída para os Conservadores.

Para aqueles que, em muitos países, apostam na onda fácil do populismo (seja o Bloco de Esquerda em Portugal com a sua insistência numa reestruturação da dívida, seja na Itália com o desafio às normas orçamentais europeias, seja na Hungria ou na Polónia com a rejeição da livre circulação de pessoas) o Brexit é uma lição poderosa. Se nem o Reino Unido, a quinta maior economia mundial, consegue extraír-se facilmente da complexa integração económica e política construída ao longo de décadas com a “Europa” como vão países mais pequenos e pobres poder escapar incólumes às garras da máquina de Bruxelas? Aconselha-se prudência.

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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