O martírio de Angela Merkel

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“Uma coroa é meramente um chapéu que deixa entrar a chuva”, Frederico II da Prússia

Durante os últimos treze anos Angela Merkel foi o que os alemães chamam de spielmacher, ou seja a árbitra do jogo, tanto na política doméstica como internacional. A biografia dela é uma lista impressionante de conquistas: a primeira mulher a chefiar a CDU alemã, a primeira mulher chanceler alemã e a primeira alemã de leste no cargo. Ela é, depois de Kohl e Adenauer, a chanceler que mais tempo esteve no cargo desde 1945. Domesticamente presidiu a um período em que a Alemanha cresceu acima da média europeia e alcançou tanto o déficit público como a taxa de desemprego mais baixos desde a reunificação de 1990.

Duas vezes nomeada como a segunda pessoa mais poderosa do mundo pela revista Forbes, uma posição nunca ocupada por uma mulher (o número um pertence invariavelmente ao maquiavélico Putin), ela foi durante estes anos todos a Presidente de facto da União Europeia. Goste-se ou não, Merkel liderou a resposta à complexa crise da zona euro entre 2008-13 e foi a líder mais vocal e activa nas relações entre a Europa e a América, Rússia e China. Pela ex-cientista da Alemanha de Leste já passaram três Presidentes americanos, quatro franceses e quatro primeiro-ministros britânicos e ela é a primeira a quem todos telefonam num cenário de crise. Merkel é a figura calma, ponderada e metódica com um estilo reservado e discreto (brilhantemente exemplificado pelo seu guarda-roupa), a quem os alemães trataram durate anos simplesmente por Mutti, a mãe da nação.

No entanto, todos os políticos são pessoas e como pessoas são falíveis. Erros acontecem, acumulam-se, e a linha ténue que leva milhões de eleitores a confiarem os seus destinos numa pessoa que não conhecem directamente quebra-se. Por exemplo, no caso de Margaret Thatcher (a única líder feminina anterior com uma estatura equivalente à de Merkel), uma combinação de dogmatismo e hubris não a levou a perceber que introduzir a poll tax em 1988 era algo que o povo britânico nunca toleraria. Apartir daí a Dama de Ferro nunca recuperou e passou dois anos a remar contra a sua própria corrente, até ser deposta brutalmente pelo próprio partido à la House of Cards.

Merkel encontra-se agora no mesmo ponto em que Thatcher estava no final da sua estadia em Downing Street. O elo forte que a chanceler tinha com o povo alemão está decomposto para além do reparável. O controlo que ela tinha sobre o próprio partido e sobre a máquina governamental desapareceu. O calcanhar de Aquiles de Merkel – deixar entrar mais de um milhão de refugiados na Alemanha em 2015 – não foi causado por dogmatismo, mas essencialmente porque Merkel não percebeu que, embora os alemães estivessem do seu lado, não estavam à espera de uma política de imigração ilimitada, com um impacto profundo na estrutura social, organizacional e até mental do país.

A Alemanha pode ser um país rico, mas mesmo um país rico não absorve facilmente, de um dia para o outro, mais de um milhão de refugiados de uma cultura completamente diferente, traumatizados pela guerra e precisando de treino intensivo durante anos para sequer aspirarem a entrarem no mercado de trabalho. A ironia trágica está em que Merkel, tantas vezes criticada por adiar decisões até estudar todas as opções possíveis (como ex-cientista), tomou com o acolhimento total dos refugiados em solo alemão nesse Verão de 2015, a sua decisão mais rápida, unilateral e não devidamente estudada. Foi nesse momento que ela, ao defender o ideal europeu de livre circulação de pessoas, feriu fatalmente o consenso que existia na Alemanha (e além-fronteiras) desde 1945 em torno desse mesmo ideal.

Desde 2016 que a vida de Angela Merkel tornou-se num martírio interminável. Primeiro lidar com o Brexit e com Trump. Depois, em Setembro do ano passado, os cristãos-democratas da chanceler obtiveram os seus piores resultados numas eleições alemãs desde 1949. Para juntar à miséria, mais de 90 deputados da extrema-direita da Alternative fur Deutschland (AfD) entraram para o Parlamento alemão nessas mesmas eleições. Merkel manteve o poder através de uma coligação mais frágil que um copo de cristal Lalique com os sociais-democratas do SPD, eles próprios reduzidos ao pior resultado eleitoral em setenta anos. Só o acordo de coligação governamental demorou seis meses a ser conseguido, entre ameaças constantes de rotura de várias alas, tanto do SPD como da CDU. Desde aí que, como o Der Spiegel escrevia há uma semana, practicamente não se governa e os acidentes sucedem-se: desde o míssil que foi disparado por engano de um navio alemão que fazia exercícios ao largo da Noruega, ao escândalo das emissões diesel em que todos os maiores fabricantes de carros alemães parecem ter tido um envolvimento directo, à falta de resposta à altura aos planos do presidente Macron para a reforma da zona euro, até à performance desastrosa da equipa de futebol alemã no Mundial. De repente e sem aviso a Alemanha parece ter passado de Wunderbare a Katastrophe.

O Conselho Europeu da semana passada em Bruxelas foi mais uma prova do declínio de Merkel e uma humilhação para o ideal liberal europeu que ela encarnou durante todos estes anos. A chanceler alemã foi para a cimeira com a promessa de criar uma política comum de acolhimento e integração de refugiados na Europa. O resultado foi tão decepcionante que, até o nosso sempre optimista António Costa, declarou nunca ter estado numa reunião tão desagradável. Não só o novo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, bloqueou completamente as negociações ao fim do primeiro dia, como um bloco composto da Áustria, Hungria, Polónia (e Itália claro) obrigou no final a um endurecimento da política europeia em relação aos refugiados. Os líderes europeus concordaram uma política “voluntária” de acolhimento dos refugiados (mas ao mesmo tempo metade deles já se recusou a aderir a essa política) e a criação de centros de acolhimento no Norte de África (que os “governos” dos países locais, como a Líbia e a Argélia, também rejeitam). Entretanto a Áustria e a Hungria continuam na prática com as suas fronteiras encerradas e a Polónia e a Itália estão a estudar fazer o mesmo, isto é, Shengen e a política de livre circulação de pessoas (uma das maiores conquistas europeias do pós-guerra) está efectivamente morta.

Como se isto tudo não bastasse, Merkel teve de enfrentar (também na última semana) a ameaça de demissão de Horst Seehofer, Ministro do Interior alemão e líder da CSU da Baviera (parceiro de décadas da CDU), precisamente por este discordar completamente da política da chanceler alemã em relação ao acolhimento de refugiados. Seehofer enfrenta eleições regionais em Outubro com forte oposição local à entrada de mais refugiados. Para conseguir que o senhor Seehofer voltasse atrás na sua demissão (o que teria derrubado todo o governo), Merkel comprometeu-se agora a criar “centros de trânsito” na fronteira alemã para refugiados registados em outros países da União Europeia. É mais uma concessão fundamental de Merkel aos partidários de uma política dura contra a imigração, dramática para uma mulher que viveu a realidade do Muro de Berlim e que sempre defendeu a liberdade de movimento de pessoas em solo europeu.

Passo a passo, Merkel enterra os príncipios essenciais de unidade europeia para poder sobreviver politicamente. Faz concessões à esquerda, centro e direita para manter o seu governo a flutuar, nem sequer falemos a governar. A cortina final está quase a cair para a Mutti, a Senhora Europa, a voz e presença que guiou o projecto europeu durante tanto tampo. O que se seguirá numa era pós-Merkel, neste cenário de nacionalismo e fragmentação cada vez mais acelarada por toda a Europa, é a questão arrepiante mas crucial para o futuro.

Foto cortesia do Deutscher Bundestag.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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