SPORT LISBOA E MEDINA

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Copyright Isabel Santiago Henriques

Medina parece um daqueles miúdos que dizem que levam tudo “na desportiva”. Ou então é a vida que lhe corre muito bem. Se eu não vivesse em Lisboa e em Portugal, acreditava que a capital portuguesa merecia todos os epítetos que já lhe deram ou estão por dar. Em menos de um mês, já ganhou mais dois “concursos” (e recursos): a candidatura da cidade mais verde e o prémio de melhor destino de férias, na Europa. Em breve, vai ser também a capital do desporto. Pois eu só vejo mais lixo, turismo de chinelo e desporto com ruído. Neste último e particular caso, nem preciso sair de casa.

No fim do ano passado, a CML, juntamente com o “histórico” Ginásio Clube Português (que já fez campeões europeus, mas sem incómodo para ninguém), decidiu adjudicar uns ruidosos campos de padel mesmo no meio de uma zona residencial. Em cima de um parque de estacionamento de vários pisos. Como se o desporto, só por ser desporto, fosse uma mais valia para todos. Ainda mais ao ar livre, ou seja, sem qualquer espécie de insonorização. Mas para uns poucos estarem em forma, o conceito de saúde (mente sã em corpo são) não se aplica aos vizinhos do lado.

Viver no centro de Lisboa (junto do Aqueduto das Águas Livres e a pérola do Jardim das Amoreiras), que tem o seu preço comercial, é igual a estar na Costa da Caparica em Agosto. Naqueles dias em que temos várias famílias a jogarem raquetes em redor. Com aquelas bolas que tememos que nos venham parar à cabeça à toalha. Em minha casa, não entrou ainda nenhuma bola pois, onde não existia nada, puseram grades e redes. Para além de umas enormes coberturas num verde-clorofila destoante, que mais parecem uns hangares: umas coberturas zinco ocupam o espaço onde “estava” o céu e a vista para o Aqueduto. Não entram as ditas bolas mas entra o barulho das ditas raquetes e dos jogadores que, por não se ouvirem a eles próprios, gritam uns para os outros. A civilização no seu melhor bem no centrinho de Lisboa.

Apesar das Associações de Moradores vizinhas terem reunido quase uma centena de assinaturas a pedir horários reduzidos, a reposição do verde onde agora estão as jaulas do tal desporto da moda, não ficaram convencidos. É tudo na “desportiva” na CML, na direcção do Ginásio e na do Património Cultural que deve cuidar que ruído não é poluição. Mau demais.

Como se não bastasse, também quem vive naquela zona vê-se roxa (e não verde) para conseguir estacionar o carro. Apesar do enorme parque de estacionamento de apoio ao ginásio, que desportista quer pagar parque quando pode estacionar em cima de um passeio, assim como há 20 anos a esta parte? Nenhum. Lisboa é uma cidade para se levar na “desportiva”. Um idílio para quem a visita, utiliza e provavelmente a deitar fora. Em suma: cada vez mais transformada num parque de diversões e comércio.

Pensar na boa-forma física individualmente é, afinal, muito mais importante para Fernando Medina, do que pensar na saúde da própria cidade e dos moradores. Pois nada me convence que ele mais está preocupado com a subida da tensão dentro da própria CML, que lhe faz oposição. Não admira pois, que ele tenha aparecido no papel do solícito Ambrósio (o motorista do célebre anúncio da Ferrero Rocher) ao serviço de Madonna. Ao que parece, ela vai pagar pouco mais do que 700 euros por mais de uma dezena de viaturas. O contrato com a cantora foi feito de “forma precária”, como vem na imprensa. Lá está: com Medina, é tudo “na desportiva”.

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O meu único compromisso é com a verdade. Desde os 10 anos que quero ser jornalista. Licenciei-me em comunicação social e fiz a tarimba toda. Tive a sorte de trabalhar com quem mais admirei: a Margarida Marante. Com ela, descobri o prazer do debate e do confronto de ideias. E a conjugar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Uma era preciosa do jornalismo, cada vez mais difícil de fazer, apesar que muitos o neguem. Aos 47 anos, sinto-me salutarmente desconfortável com muita coisa. Receio a censura das ideias e dos actos pelo medo de outras ditaduras modernas: a do dinheiro sem valores e a da felicidade descartável. Politicamente, não consigo definir-me. Sou um híbrido geopolítico. Cresci no Porto mas migrei para Lisboa há 25 anos, de onde só sairei se for para o campo. Autora da rúbrica Defeito de Fabrico

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