Sim, feminismo é preciso. Na educação e nos outros lados.

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Copyright Isabel Santiago Henriques

Cada um educa os filhos transmitindo-lhes os valores que bem entende. Em 2018 pode haver quem ainda eduque as filhas para casarem virgens – pela igreja ou pela mesquita – e prosseguirem uma vida dedicada a cozinhar o almoço e o jantar para o marido e a engravidar sucessivamente de muitos filhos. Não é ilegal. Na verdade, estas ideias que pensávamos enterradas nos cérebros das pessoas que nasceram por volta da primeira guerra mundial estão atualmente a regressar a certos meios políticos de direita. É vermos como nos Estados Unidos Trump tem tido uma política deliberada de dificultar o acesso por cada vez mais mulheres aos métodos contracetivos (e não apenas ao aborto, como costumavam fazer os anteriores presidentes republicanos). Ou a retórica dos novos pensadores do movimento trumpista. Nestes campos, uma mulher não vale por si própria, vale apenas pela sua capacidade de ser mulher de algum homem ou mãe de alguma criança. Há pouco mais de um mês, Candace Owens, uma das novas pensadoras republicanas (sim, há mulheres que se prestam a estas figuras), já elogiada pelo twitter do presidente Trump, perguntava nesta rede social se acontecia alguma coisa bioquímica estranha às mulheres que não casam nem têm filhos.

Juntemos a isto as reações ao movimento MeToo, quando tantos gritaram que era uma caça às bruxas e efetivamente desejavam regressar ao tempo em que as mulheres não tinham capacidade de denúncia pública das agressões e assédios sexuais de que foram alvo. Pretendiam que permanecêssemos reféns de um sistema criminal que é mais violento com as vítimas de abusos e assédios sexuais que com os agressores. De resto vêem-se com frequência, por todo o lado nos países ocidentais (não precisamos de viajar para as zonas tribais do Paquistão), sentenças judiciais levíssimas para crimes sexuais graves e com consequências devastadoras na vida das vítimas. No Canadá um juiz não entendeu por que razão uma mulher violada não fechou simplesmente as pernas. Nos Estados Unidos um rapaz que drogou uma rapariga numa universidade e a violou teve seis meses de pena suspensa porque o juiz simpatizou com ele. Por cá a regra é a pena suspensa, mesmo para abusos sexuais de menores. Em Espanha todos nos lembramos da La Manada – que de resto já tem fãs que imitam os seus atos.

Acrescento ainda as desigualdades salariais entre homens e mulheres para a mesma profissão e competência. A falta de representação feminina nos cargos de topo. A sobrecarga horária de trabalho das mulheres devido às tarefas domésticas ficarem sobretudo com elas. E, para acrescentar à sobrecarga das tarefas de cuidadoras da casa e de todos os familiares necessitados, são acusadas por homens como o criador de sapatos Luís Onofre de faltarem mais ao trabalho. A violência doméstica. O facto de mulheres e crianças terem em todo o mundo, desenvolvido e por desenvolver, uma muito maior risco de pobreza que os homens.

Além de assuntos mais finos – mas que constrangem (e pretendem constranger) a vida das mulheres – como o apagamento dos contributos cívicos e políticos e intelectuais das mulheres. Nenhuma estratégia é tão boa para anular a influencia feminina como ignorar os contributos das mulheres. Não escreveram nada de importante, não estudaram coisa alguma de relevante, nunca demonstraram originalidade artística, o que não ficou registado não existiu. Esta estratégia permanece intacta, atenção. São homens que decidem o que é um trabalho bem feito (e escolhem quem lhe é mais parecido, não as mulheres, que somos diferentes). São os homens que fazem opinião sobre livros e filmes – e premeiam aqueles que lhes são mais próximos do gosto, nada de pieguices femininas (e feministas, cruz credo). As mulheres são mais interrompidas nas reuniões de trabalho. São mais insultadas nas redes sociais e têm um muito maior escrutínio sobre o que dizem. E por aí adiante.

Ah, e que dizer dos ataques descabelados e de má fé que se fazem ao feminismo e às feministas? Não gostamos de depilação, de homens, só os gatos nos aturam, somos umas ressabiadas com falta de sexo ou, em alternativa, umas meretrizes experientes, queremos apenas esmifrar os pobres homens trabalhadores para nos sustentarem benefícios que nós não temos mérito para obter por nós próprias; como tantas vezes leio: queremos que a sociedade nos dê coisas só porque temos mamas. A alucinação é interminável. E depois crescem fenómenos de ‘direitos dos homens’ ou dos ‘celibatários involuntários’, que são somente gente disfuncional que viveria bem com o sistema de escravatura sexual do ISIS e que consideram as mulheres animais para fazerem filhos e satisfazerem sexualmente os homens e mais nada.

Neste contexto – e nem referi o resto do mundo, onde a condição feminina tem agruras piores – pretender que feminismo não faz sentido, ou que é uma cultura de vitimização – em vez de uma defesa de justiça, recusa de uma cultura milenar de machismo, e de direitos e oportunidades efetivamente iguais -, ou que deve estar fora dos valores que as pessoas de bem transmitem aos filhos, bom, é uma ideia perigosa. Na minha modesta e feminista opinião.

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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