Eu vi o futuro

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E o futuro é parecido a uma oficina de carros cheia de mecânicos de palitos nos dentes e calendários de moçoilas assanhadas na parede.

Quinta à noite na capital. Jantar debate “Ministério Público – Presente e Futuro” do Portugal XXI. Joana Marques Vidal, Procuradora-Geral da República, é a convidada de honra. O local, um conhecido hotel no centro de Lisboa. O jantar é por convite e aberto à comunicação social. Sala cheia e bem composta por advogados, jornalistas, políticos.

Apesar da sala estar bem representada em termos dos dois sexos, algo salta à vista. O evento foi organizado por mulheres, a convidada e moderadora mulheres eram, na mesa dos advogados e da comunicação social elas estavam em maioria. Só observei contigentes masculinos absolutos nas alas do chefe de sala e equipa de empregados e nos camaramen.

Com a maioria dos licenciados a sairem das universidades compostos por mulheres, a visão desta sala é o futuro.

Na minha mesa, por acaso porque os lugares não estavam marcados, calha de sermos sete mulheres e um homem. Estão presentes políticas, jornalistas, escritoras, empresárias, etc. O jantar decorria em ameno convívio até uma das mulheres sacar do telemóvel para mostrar fotografias no Instagram de um conhecido deputado na praia. O telemóvel passa pela mesa para que todas possam apreciar ignorado o convidado presente. Vários comentários foram proferidos sobre os trajes menores, tatuagens e volume dos músculos do deputado.

Imaginem que a situação se passava ao contrário. Mesa composta por homens só com uma senhora presente. Um dos homens decide passar um telemóvel com fotografias de uma deputada em bikini na praia. Seguem-se comentários lascivos e avaliação de atributos físicos por  pontos como no Festival da Canção.

Para que o homem não se sentisse mais constrangido tentei amenizar a situação desviando o assunto para matérias de certo do seu interesse – lar e filhos. Perguntei-lhe se não se sentia mal de estar aquela hora num jantar e os filhos abandonados em casa. Não respondeu, calculo que por um problema de timidez. Insisti, e para o deixar confortável, desviei o assunto para o lado profissional e perguntei como é que conciliava a carreira profissional com a família. Não era preferível ficar em casa? Não se sentia culpado por colocar a sua carreira profissional à frente do bem estar e felicidade da família? Nada. Mas nesta altura começou a soluçar baixinho. As minhas companheiras não perceberam porque continuavam distraídas a discutir os bíceps do deputado.

Decidi intervir e impor ordem na mesa e declarar que desconfiava que as mulheres eram piores que os homens porque nunca tinha visto um calendário de freiras enquanto o calendário de padres do vaticano em pelota é um sucesso. Resposta de uma das convidadas “Mas já olhou com atenção para os padres em Itália?” “Errr… não”. Fui arrumada. Continuaram a discutir as fotografias.

Por falar em mais futuro. Joana Marques Vidal a demonstrar no debate porque está no cargo e deveria ser um imperativo ser reconduzida. Uma aula ao vivo sobre o funcionamento das investigações, ministério público, magistrados, etc. Ponderação e bom senso nas respostas apesar das tentativas frustradas da comunicação social em abordar temas quentes como a Operação Marquês ou o fim do seu mandato em Outubro. Da minha parte só tinha uma questão para o debate – pedir à Procuradora-Geral o número de telefone do agente que decide o nome das operações. Tutti-frutti, isto é de génio. Será que encontro fotografias dele no Instagram?

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