Que diria Hipócrates sobre a eutanásia?

0
Copyright Isabel Santiago Henriques

O Juramento de Hipócrates mudou.  Criado no séc. V a.c., conheceu duas versões: a original (traduzida do grego jónico, em 1771) e  uma outra, actualizada pela Convenção de Genebra (1948), e ratificada apenas três vezes. Na versão da 1983, os médicos recém-formados tinham de dizer: “guardarei respeito pela vida humana desde início”. Agora, passarão a jurar que guardam o “máximo respeito pela autonomia e dignidade” do doente. Apenas um eufemismo? Talvez não.

Durante o debate sobre a despenalização da eutanásia ou morte medicamente assistida, não ouvi nenhum deputado a mencionar nem a divagar sobre estes alterações. Apenas as li em textos de médicos pró despenalização da eutanásia a referirem a alteração acima mencionada. De acordo com os próprios, a leitura é uma e inequívoca. Esta mudança abre a porta à concepção de que a vida pela vida perde o valor integral, sempre que o doente esteja numa situação de dependência e/ou capaz de atingir a sua dignidade enquanto pessoa. Assim, numa situação de sofrimento extremo ou de incapacidade irreversível, a eutanásia é possível.

Neste juramento solene, com forte carga simbólica, nada obriga a que o médico pratique a eutanásia. Apenas muda o conceito de bem-estar do doente. O Juramento de Hipócrates (que não é vinculativo) já foi aprovado pela Organização Mundial dos Médicos, em Novembro de 2017. Resta saber qual a receptividade que teve (ou será que ninguém soube?) na Ordem dos Médicos e legisladores nacionais. E o que é que os finalistas em medicina pensarão sobre este juramento solene? É um debate ético e académico actualíssimo que urge ter. Afinal, é este o grande compromisso ético e deontológico dos novos formados.

Mas não são apenas estas as novidades em relação ao documento anterior. Para além da idade, deficiência, credo, etnia, nacionalidade, filiação política ou estatuto social, também a orientação sexual do doente nunca se deverá entrepor no dever do médico. Para além disso, os médicos (também eles pessoas que podem – e ficam – doentes, física ou mentalmente) estão protegidos nesta nova versão. A saúde destes profissionais é vista como fundamental para o exercício da profissão, pelo que os que optarem por jurar o documento terão de dizer: “Cuidarei da minha saúde, bem-estar e capacidade para prestar cuidados de maior qualidade”. Numa altura em que o excesso de trabalho da classe médica (assim como de outros profissionais de trabalho) conduz a situações de burnout estas alterações são de altíssima importância.  E não é só em Portugal. Como pode alguém doente ou sem estar na plenitude das suas capacidades físicas ou mentais, ir por exemplo, operar durante horas seguidas? Ou saber aconselhar os outros a terem determinados comportamentos quando eles próprios se cuidam mal?

Creio que o silêncio em torno destas alterações só pode ser estratégico. E não por parte dos que mais interessam: os médicos e os doentes. Cada vez mais, a saúde é uma área onde interesses de vária ordem entram em jogo: a concentração em grandes grupos de saúde, onde existe uma monitorização cada vez maior dos empregados (neste caso, os médicos), com vista a fazer render negócios e servir interesses mais ou menos óbvios ou declarados.

Artigo anteriorMacron: a coragem da acção, entre De Gaulle e Ícaro
Próximo artigoOs mitos perniciosos sobre as diferenças salariais entre homens e mulheres
Avatar
O meu único compromisso é com a verdade. Desde os 10 anos que quero ser jornalista. Licenciei-me em comunicação social e fiz a tarimba toda. Tive a sorte de trabalhar com quem mais admirei: a Margarida Marante. Com ela, descobri o prazer do debate e do confronto de ideias. E a conjugar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Uma era preciosa do jornalismo, cada vez mais difícil de fazer, apesar que muitos o neguem. Aos 47 anos, sinto-me salutarmente desconfortável com muita coisa. Receio a censura das ideias e dos actos pelo medo de outras ditaduras modernas: a do dinheiro sem valores e a da felicidade descartável. Politicamente, não consigo definir-me. Sou um híbrido geopolítico. Cresci no Porto mas migrei para Lisboa há 25 anos, de onde só sairei se for para o campo. Autora da rúbrica Defeito de Fabrico

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.