Macron: a coragem da acção, entre De Gaulle e Ícaro

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“Deliberar é tarefa de muitos. Agir é tarefa de um só.” Charles de Gaulle

Quem teria acreditado? Na semana passada o Presidente francês, Emmanuel Macron, conseguiu aquilo que todos os prévios presidentes franceses desde De Gaulle tentaram e nunca conseguiram: derrotar clara e inequivocamente os sindicados dos trabalhadores dos comboios. Esta vitória é tão simbólica e importante para a causa do liberalismo em França como quando em 1984 Thatcher derrotou os mineiros no Reino Unido e sugere, como escreveu o Le Figaro, não só que os dias em que os sindicatos paralisavam a França acabaram de vez mas também que o momento de Macron daqui para a frente é imparável.

A rede pública de comboios franceses é muito mais que uma simples rede de transporte e tornou-se um símbolo do país esclerótico, em declínio e desanimado que Macron herdou em 2017. A empresa pública que a detém (SNCF) está atolada em dívida: mais de cinquenta mil milhões de euros e a crescer ano após ano. Os comboios estão obsoletos: vou bastante a França em férias e no ano passado chocou-me o estado dos comboios, mesmo na Riviera, onde as carruagens têm tanto grafitti, lixo e urina acumulada que fazem lembrar a bancarrota de Nova Iorque em finais dos anos 70. Só falta um Studio 54 e constantes tiroteios nas ruas.

Algumas das estações de comboios centrais como, por exemplo, a Gare du Nord em Paris, parecem bairros de refugiados, com uma média de vinte assaltos por dia entre a indigência geral. Os atrasos e cancelamentos de comboios são o pão nosso de cada dia (mais de 20% dos TGVs em Franca chegam atrasados em média mais de trinta minutos) e o serviço péssimo. Tudo isto contrasta brutalmente com as condições de trabalho que os maquinistas tinham até agora: salários de mais de 100,000 euros por ano, reformas aos 52 anos (10 anos mais cedo que a maioria dos outros trabalhadores franceses, já de si uma das idades de reforma mais baixas da Europa) e uma variedade de bónus, férias extra, viagens pagas (para toda a família) e claro contratos de trabalho vitalícios.

Há décadas que o público francês estava farto deste regime e gradualmente começou a desligar-se do uso dos comboios. Por exemplo, as rotas aéreas entre Paris e Lyon viram o número de passageiros aumentar 35% nos últimos cinco anos, enquanto que a mesma rota ferroviária perdeu cerca de 30% de utentes. Chega Macron propondo uma reforma total de condições de trabalho, completa restruturação da dívida da SNCF e introdução de competição privada (apartir de 2020).

Ao contrário das tentativas de Presidentes anteriores, Macron não deu passos atrás nem se rendeu aos sindicatos, mesmo depois de quatro meses consecutivos de greves ferroviárias (o sindicato mais extremo, o CGT, ainda está a planear uma paralisação total da rede ferroviária francesa durante a estação turística de Verão). Mas a luta está largamente perdida para os sindicalistas. Não só Macron não desiste até atingir o seu objectivo programático (foi assim com a reforma da lei do trabalho, com a reforma escolar e até com a reforma da lei do mecenato cultural, tudo áreas onde se dizia a priori que não seria possível mudar nada em França) como os tempos mudaram.

Os sindicatos franceses portam-se como se fosse 1960, antes de haver alternativas de transporte (apps de car sharing, companhias de aviação low cost ou o trabalho de casa através da Internet). E esquecem-se das razões porque Macron foi eleito: o francês comum estava farto do declínio à sua volta (nem um único orçamento de Estado equilibrado desde 1974, uma taxa de desemprego que é mais do dobro da alemã, crescimento anémico, terrorismo e por aí fora) e sobretudo da forma complacente como gerações de políticos dos partidos tradicionais prometiam mudanças que depois nunca eram concretizadas.

Apesar das falhas da personalidade de Macron (uma auto-confiança que está no limite da egomania, um desdém absoluto por ser popular e até um cultivar obsessivo de uma distância presidencial incomum desde De Gaulle), os franceses apreciam a honestidade brutal, a coragem e a capacidade de movimento rápido contra a esclerose de uma economia imobilista. Tudo isto é apoiado na radical revolução política que Macron executou em Maio e Junho de 2017: de uma assentada um novo partido moldado à sua imagem (onde a idade média dos deputados é de apenas 34 anos) tomou controle absoluto da Assembleia Nacional e do aparelho estatal, deixando tanto a esquerda como a direita tradicionais de rastos.

Na essência, Macron é um maverick, um rebelde disruptor, como é retratado brilhantemente na nova biografia “Revolution Francaise: Emmanuel Macron and the Quest to Reinvent a Nation”, escrita por Sophie Pedder, a editora-chefe do Economist em França. Ele é a criança sobredotada que preferia ler Hegel com a avó (figura crucial na sua vida) aos oito anos de idade, em vez de brincar na rua. Ele é produto de uma infância priveligiada mas definitivamente classe média (um outsider aos meios super-snobs da Avenue Foch e de Neuilly-sur-Seine, onde a tradicional elite política parisience circula, mas que os soube navegar destramente através do seu trabalho para o serviço público e no banco Rothschild, contruindo uma rede de contactos e alianças sem par em França para um jovem com apenas 30 anos na altura). Ele é também a independência absoluta de um estilo de vida: a decisão de não ter filhos, o casamento com uma mulher vinte anos mais velha, numa sociedade que ainda é profundamente patriarcal e machista. Ele não é nem esquerda nem direita porque rejeita as constrições de ser pré-definido e rotulado ideológicamente e porque considera a linha de fronteira esquerda versus direita ultrapassada. Ele decidiu quando e como saiu da equipa de Francois Hollande, a quem devia a carreira política, na altura e contexto certos (informando Hollande por mensagem de SMS, o que indica uma frieza calculista quando necessário). Ele é acima de tudo um actor livre.

Durante a campanha eleitoral para as Presidenciais de 2017, Macron famosamente confrontou um jovem algeriano que lhe pediu face a face uma desculpa pela colonização francesa. O presidente francês perguntou ao jovem que idade tinha e ao saber que ele tinha apenas vinte e cinco anos de idade, respondeu: “Mas tu nunca conheceste a colonização, porque me estás a perguntar isso? A tua geração deve olhar para o futuro e não para o passado”. Igualmente (e contra todas as recomendações da sua equipa de segurança) Macron visitou a fábrica da Whirlpool afectada por vagas de despedimentos e falou face a face com uma massa hostil de empregados que o viam como um produto do “capitalismo parisience”. É essa frontalidade que gradualmente o fez ganhar o respeito (se bem que não o amor) dos franceses.

O que se segue na (re)evolução macroniana? O próximo passo na agenda do Presidente vai ser uma reforma completa e intensa do sistema de pensões, outro dos tabus sagrados da Quinta República Francesa. Em paralelo continua a luta por uma reforma ambiciosa da zona euro, essa mais difícil pela extrema debilidade política em que Angela Merkel se encontra de momento. Curiosamente nem Macron nem o governo francês se têm afastado um milímetro do que prometeram durante a campanha: 98% das medidas previstas para o primeiro ano de mandato foram cumpridas à risca.

Este tipo de transparência e capacidade de execução são algo que a sociedade francesa já não estava habituada há muito tempo, mais precisamente desde De Gaulle. O fundador da Quinta República mudou o regime político francês e acima de tudo construiu um regime à sua imagem e indissociável da sua pessoa. No caso de Macron não se trata de começar uma nova república ou de aspirar a uma “política de grandeza” como a de De Gaulle (a França tem demasiadas debilidades estruturais de momento para aspirar a isso) mas pura e simplesmente de pôr a República a funcionar num modelo centrista liberal (na linha dos governos escandinavos ou holândes, por exemplo) onde há um balanço mais equilibrado entre direitos e deveres de todos os actores políticos e sociais, incluindo o Estado (atenção que Macron não é de modo algum um ultra-liberal como Thatcher foi, por exemplo).

Macron tem um desejo claro de velocidade, como Ícarus. Pode queimar-se no fim, tal como o mito grego, mas nada vai ficar igual ao passado em terras gaulesas.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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