Margarida e a política: um affair para toda a vida

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Margarida Balseiro Lopes não é o habitual na liderança da JSD, e por muitas mais razões que o facto de ter dois cromossomas x em vez da combinação xy dos anteriores líderes da jota social-democrata. Há nela uma garra que se nota em poucos políticos de qualquer dos sexos (e, em boa verdade, de qualquer das idades). Já antes de ganhar a liderança da JSD, os que acompanham a política tinham reparado nela, quer no parlamento – é deputada do PSD – quer nas redes sociais – onde tem uma presença assertiva, contundente, com uma ponta de humor e até um suave sarcasmo.

Conversámos na Assembleia da República, numa sala de reuniões ainda a cheirar a tabaco dos ocupantes anteriores, com a janela totalmente aberta para disfarçar. Apropriadamente, Margarida veste uma túnica cor de laranja. A informalidade da roupa está tão de acordo com o dress code habitual da JSD (que, em tempos, foi usar um blusão em vez de blazer para o trabalho parlamentar) como com a personalidade da dona. Digo-lhe que assim não se confunde com os políticos cinzentos, que as mulheres têm essa sorte de se evidenciarem pela roupa. Concorda, mas lembra que também há mulheres políticas muito cinzentas. Verdade.

Porém também não é só a descontração e a serenidade segura – ou, melhor, a serenidade férrea – que a diferencia. É liberal nos costumes, defendeu recentemente a legalização da eutanásia (e não foram muitos mais os deputados do PSD que tiveram a coragem de a acompanhar), mas recusa ficar somente por essas políticas que criam divisões e são, por isso, mais mediáticas. É boa oradora e tira partido disso. Nas cerimónias do 25 de abril o discurso do PSD foi-lhe encomendado e, depois de entregue, unanimemente muito elogiado.

Mas não, caro leitor/a, a grande diferenciação também não é a capacidade oratória. Digamos que é o arco do que lhe prende a atenção na política. A atenção e a atuação. Margarida Balseiro Lopes, 28 anos, não se contenta com os assuntos que os políticos mais avantajados de idade de todos os partidos reservam para as juventudes partidárias: proporem a ocasional alucinação que leve alguns jovens a votar no partido mas que o dito partido nem depois de uma sessão de tortura pela Stasi tornaria sua. Bem pelo contrário. Margarida quer, garante, ocupar-se das políticas com efetivo impacto na vida das pessoas, que tenham ressonância na generalidade das pessoas.

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Recentemente, Margarida Balseiro Lopes apresentou uma proposta legislativa para alterar o estatuto das famílias de acolhimento de menores a cargo do estado, incluindo a possibilidade de deduções fiscais (até agora inexistentes) das despesas tidas com o menor acolhido. Não é um tema sexy, mas é um tema importante. Que os políticos tendem a esquecer – bem como vários outros referentes a menores institucionalizados – porque, como disseram a Margarida Balseiro Lopes, ‘elas [as crianças] não votam’.

Mesmo não votando, Margarida interessa-se por elas. Espanta-se mesmo por nunca terem suscitado interesse que resultasse em alguma melhoria na vida dos oito mil menores a cargo do estado. De resto, tem os números na ponta da língua. Em Portugal estas crianças e adolescentes estão na esmagadora maioria institucionalizados e apenas 3,2% vivem em famílias de acolhimento. Na Irlanda são 90% e em Espanha mais de 60%. Sendo que viver em contexto familiar, relembra, é muito mais proveitoso para as crianças e para o seu desenvolvimento.

Por estes dias, Margarida Balseiro Lopes ocupa-se com outro assunto de que até alguns políticos com muitos anos de lidas políticas tentam fugir: o combate à corrupção. Pretende também fazer propostas neste sentido. Para isso está a contactar os atores do lado da justiça para conhecer métodos, necessidades, recursos e por aí adiante mas sem perder de vista que terá de ser uma solução que vá ao encontro das desejos – por ora acicatados, dados os casos high profile dos últimos anos – da população. Nesse sentido, já apoiou publicamente a recondução de Joana Marques Vidal como Procuradora Geral da República. Porque, lembra, foi eficaz a investigar quem até aí nunca seria investigado.

É que Margarida Balseiro Lopes não tem hábito de ficar pelas intenções pomposas. Nota-se que o apreço da deputada pela política se concentra mais na execução, na concretização, em fazer. Às tantas, a meio da conversa, profere um ‘eu não falo, eu faço’. Mais à frente garante que por vezes é melhor ‘não dizer e fazer logo’. É impossível não lembrarmos a famosa tirada – muito do meu apreço – de Margaret Thatcher: ‘if you want something said, ask a man, if you want something done, ask a woman’. E, já que chegámos à mitologia Thatcher, sente-se em Margarida Balseiro Lopes um certo aço por baixo do sorriso frequente e aberto. The lady is not for turning – é uma expressão que eu não enjeitaria aplicar a esta Margarida nacional. (Sim, reparou bem, partilham o nome.)

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Deputada desde 2015, concede que nos primeiros meses foi tratada com abundante condescendência e paternalismo pelos seus pares no parlamento. Mas que, cedo, passou a valer pelo que fazia bem, e daí ter participado em comissões parlamentares mediáticas como a da Caixa Geral de Depósitos e a da Transparência.

Pormenor importante: é deputada em exclusividade. Suspendeu a sua atividade profissional quando foi eleita para a Assembleia da República. De resto, considera que a exclusividade deve ser a regra para os deputados. E – acrescenta a alfinetada – ‘já agora para o governo também’ – aludindo, claro, ao ministro Siza Vieira que foi vários meses ministro sem exclusividade, simultaneamente gerente de empresa e ministro Adjunto.

E o feminismo? (Não podia faltar na conversa.) Fiquei com a ideia, das entrevistas que li aquando da candidatura para a liderança da JSD, que Margarida Balseiro Lopes preferia que não se valorizasse o facto de ser mulher e candidatar-se/ocupar um lugar até agora sempre masculino.

Que não, esclarece-me. Simplesmente não queria reduzir o seu programa ao facto de ser mulher e estar a candidatar-se à liderança da JSD que nunca teve uma mulher. Isso seria redutor – para a Margarida Balseiro Lopes e para todas as mulheres. Pergunta o que valeria ser mulher líder da JSD se depois tivesse uma direção só de homens? (Lá está: prefere concretizar do que brandir ideias que ficam vazias se não há ação.) Sim, é favorável às quotas e gostaria muito que mais mulheres viessem para a política.

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Tem outro desejo (forte): credibilizar as juventudes partidárias. Reconhece que os  membros das juventudes partidárias que cedo se concentraram apenas no trabalho político e tiveram percursos académicos sobressaltados – ou inacabados – deram uma má imagem às jotas. Por isso mesmo (e porque lhe traz mais liberdade) fez questão de terminar curso e mestrado (na área de Direito) e de ter carreira profissional fora da política paralelamente à militância da JSD (fez consultoria fiscal).

Com esta má imagem generalizada declara que vários jovens têm medo de revelar nos empregos e nas candidaturas que fazem parte de juventudes partidárias.  O que, garante com veemência, é injusto. Fazer parte de uma jota deve significar enriquecimento das competências pessoais de qualquer profissional (a par com experiências como voluntariado): dá um grande traquejo para falar em público, um grande à vontade no contacto com as pessoas e, até, um conhecimento dos assuntos políticos pouco comum nos mais jovens.

Margarida Balseiro Lopes, 28 anos, já tem uma longa vida de atividade partidária. Fez parte das associações de estudantes das escolas e universidades por onde passou, é líder da JSD, é deputada pelo PSD. Recorda-se – com aquela nitidez que reservamos para os momentos que percebemos que nos mudaram a vida – da aula de francês onde, tinha quinze anos, uma colega comunista lhe disse que, com as ideias que defendia, Margarida estaria bem no PSD e na JSD. Tinha razão. Pelo nosso lado, desconfiamos que o romance de Margarida Balseiro Lopes com a carreira política seja como o de Lord Goring (de Oscar Wilde): um affair para toda a vida. E, por agora, acabou de começar.

 

Texto de Maria João Marques. Fotografias de Isabel Santiago Henriques.

 

 

 

 

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