Sexo e a Cidade – uma série feminina e feminista

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Não percebi logo o aniversário. Vi muitos tweets sobre a série de televisão Sexo e a Cidade, mas em boa verdade sempre foram usuais os tweets sobre o Sexo e a Cidade, ultimamente sobretudo à volta da guerra feudal entre Kim Catrall e Sarah Jessica Parker, mas ainda assim nada que me levantasse as suapeitas. Foi só ao fim do dia 6 de junho que percebi a avalanche tuiteira das vinte e quatro horas anteriores: Sex and the City estreou nos Estados Unidos há vinte anos.

Claro que tive uma micro crise à conta da idade que podia bem ter feito parte das histórias da série, mas por hoje passemos à frente e avancemos para a própria da série.

Os anos 90 eram um mundo diferente do que temos hoje. Antes do terrorismo islâmico, das guerras do Afeganistão e do Iraque, do ISIS e da Síria, da crise dos refugiados. Dos extremismos políticos que nos trouxeram o Brexit, Donald Trump e Marine Le Pen. Da reemergência de movimentos supremacistas e machistas nos Estados Unidos que, agora, graças ao trumpismo, se estão a tornar a política mainstream republicana. Por outro lado, também antes do feminismo ter dado conta que tem de ser organizar mais renhidamente para não ver os direitos e oportunidades das mulheres trucidados e regressar a décadas de que só os obscurantistas têm saudades. O Sexo e a Cidade nasceu, assim, numa altura mais descontraída em que se podiam discutir temas sérios – os das mulheres – sem misturar política. (Ou misturando, mas só quando Carrie, a protagonista, namorou com um político novaiorquino que lhe pediu para lhe urinar em cima. Resultando numa crónica, para o jornal onde Carrie escrevia, com o glorioso título ‘To Pee or Not to Pee’.)

É fácil descontar a série como uma história de estouvadas sempre atrás de homens e de roupas. Afinal há sempre abundantes pessoas que não percebem nada do que vêem além da rama. Também por isso inicialmente os envolvidos na criação da série esperavam alguma fúria das feministas. Mas estas não veio. E, curiosamente, Sexo e a Cidade acabou por se tornar uma série feminista – e daquele feminismo bom, o das mulheres que gostam de homens (se heterossexuais), os querem na sua vida e que, além disso, adoram roupa e cuidar de si próprias.

Não trata dos assuntos feministas de hoje. Só lateralmente se ocupa das carreiras das personagens. Samantha é uma relações públicas de sucesso e com dinheiro. Miranda é uma advogada bem na vida. Carrie é escritora e demasiado gastadora para a sua profissão. Charlotte é uma galerista que deixa de trabalhar quando se casa – o que gera desconforto nas amigas. As diferenças salariais estão ausentes da série. A falta de representação feminina nos cargos de poder, também. Violência sexual é inexistente (exceto quando Samantha encena uma violação com o namorado Jared.). Microagressões fariam as quatro protagonistas rirem. Os piropos de rua são bem vistos. A interseccionalidade é palavra desconhecida. Ainda não se havia gerado a mania de afirmar que o amor (com alguém do sexo de preferência de cada um) não é um componente insubstituível da felicidade.

E, no entanto.

É uma série sobre quatro amigas. De rompão rasgou-se o cliché de que as mulheres se odeiam umas às outras. Não há zangas por causa de homens entre as amigas – ou, se há, resultam de discordâncias sobre continuidades de relações e desprezo de conselhos das amigas. O poder das ligações femininas, a lealdade das amizades entre mulheres, o espaço que os afetos femininos ocupam na vida das mulheres (heterossexuais, no caso) – Sexo e a Cidade é uma ilustração magnífica de tudo isto e a sua glorificação.

Por outro lado, gira à volta desse assunto muito importante: a liberdade sexual das mulheres. Escancaradamente, sem pudores nem tergiversações nem justificações. E é aqui profundamente atual, porque todos os movimentos políticos à direita têm como ponto comum a limitação da sexualidade feminina. Dou dois, só dois, exemplos. Donald Trump tem tido políticas em vários vetores que dificultam o acesso à contraceção pelas mulheres americanas (ora tirando o financiamento a entidades que o providenciam, ora isentando alguns seguros de cobrirem contracetivos). Por estes dias, uma política russa com responsabilidade nos assuntos de famílias aconselhou as russas a não terem sexo com homens de outras raças durante o mundial de futebol. Em boa verdade, muito da política da nova direita isolacionista acaba também a girar em torno da liberdade sexual feminina (para a limitar).

É, assim, bonito ver uma série sobre quatro mulheres que estão tanto em busca do amor como do prazer sexual. Orgasmos (os femininos), sexo oral, sexo anal (é épica a cena em que as quatro amigas discutem o assunto num taxi com um motorista que evidentemente não se consegue concentrar na condução), falta de química no sexo, incursões lésbicas, problemas sexuais dos homens, e por aí adiante. Está lá (quase, quase) tudo.

E tudo isto em diálogos bem feitos e inteligentes, histórias divertidas, roupas fabulosas, obsessões de Carrie por sapatos (quem não?), um hino de amor a Nova Iorque (antes da cicatriz do 11 de setembro), bons atores e, sobretudo, atrizes. O Sexo e a Cidade tem vinte anos, mas revejo todas as temporadas (tenho todas em dvd, claro) agora sem a sentir datada. Afinal estão lá assuntos intemporais.

 

 

 

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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