Trump, Kim e a Pax Americana

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“The American temptation is to believe that foreign policy is a subdivision of psychiatry”, Henry Kissinger

A “cimeira do século” acabou há horas nos trópicos manicurados de Singapura. Trump e Kim encontraram-se, o primeiro encontro face a face de um Presidente americano com um Chefe de Estado norte-coreano. Trump e Kim deram um aperto de mãos, sempre uma coreografia complexa nesta era da Casa Branca. Trump e Kim falaram debaixo de muitas bandeiras dos dois países. Kim já voltou para a Coreia do Norte. Trump ficou para dar uma conferência de imprensa porque o ego lhe impediria de fazer outra coisa (este é o Presidente que mais se queixa dos media mas que mais precisa deles, como um vampiro precisa de sangue). Para Trump os dois têm agora uma “relação especial”, não interessa entrar em detalhes sobre o que foi acordado e a vida daqui para a frente vai ser como num episódio do Cheers, where everybody knows your name.

Convém voltar um pouco atrás para ver como chegámos aqui. Há apenas um ano a Coreia do Norte era, para todos os efeitos, um estado marginal, onde o próprio Kim mandou matar o irmão num aeroporto da Malásia e deu idêntico destino ao tio (podemos seguramente concluir que os Natais naquela família não se devem passar a ver a Música no Coração). O regime norte-coreano tinha e tem milhares de cidadãos detidos em verdadeiros gulags, um monopólio total sobre a comunicação social e uma economia controlada pelo aparelho governamental dos pés à cabeça. Nada disto mudou até hoje com a excepção de dois elementos: a economia e a China.

A economia norte-coreana já se encontrava num estado débil e sentiu substancialmente o peso das sanções internacionais, sobretudo quando a China se viu forçada, relutantemente, a aderir a essas sanções. A China é para todos os efeitos o parceiro comercial e político que verdadeiramente conta ao regime norte-coreano. No entanto, a China fez em 2017 um dos seus cálculos estratégicos clássicos mas de impacto substancial: era altura de pressionar o regime norte-coreano a abrir-se (de forma muito moderada) para evitar uma escalada sem fim na península coreana e ao mesmo tempo permitir o fim das sanções. A China não quer necessariamente uma mudança de regime no seu vizinho mas acima de tudo não quer um conflito nuclear à sua porta. A Coreia do Sul encarregou-se de ser a locomotiva do rapprochement (os Jogos Olímpicos de Inverno caíram como uma luva no calendário) com a devida autorização chinesa por detrás. De uma forma naïve os sul-coreanos esperavam uma mudança dramática, enquanto os chineses jogavam a longo-prazo.

Do lado dos Estados Unidos, Trump e a sua equipa sentiram que nesta situação estava um easy win diplomático que o Presidente poderia usar para a sua base de apoio ultra-conservador doméstico, ou seja um pouco mais de Make America Great Again para o público da Fox News. Trump passou meses a bombardear Kim com tweets mais ou menos insultuosos e por um momento pareceu que se estava muito próximo de um conflito atómico, com o regime norte-coreano a fazer uns testes nucleares devidamente filmados e publicitados. Tudo isto era bluff claro, mesmo quando há apenas dez dias atrás Trump proclamava que a cimeira poderia não acontecer. Tanto Trump como Kim precisavam que este encontro acontecesse, o primeiro por publicidade interna, o segundo para aceder ao capital e à respeitabilidade internacional. Não interessava se a preparação e os contactos devidos entre as duas delegações mal tinham sido estabelecidos (por exemplo, foram precisos três anos de conversações constantes entre as delegações de Reagan e Gorbatchov até se chegarem aos primeiros acordos). O que interessava a ambas as partes era aparecer.

O que foi então concordado em Singapura? Na essência as mesmas generalidades com que a Coreia do Norte já se tinha comprometido antes sem tanta fanfarra. Primeiro, os Estados Unidos e a Coreia do Norte comprometem-se a “construir um regime estável e pacífico na península coreana”. Não se detalha se isto implica substituir o tratado de paz de 1953, até porque isso implicaria o envolvimento da China e de uma série de outros países, nem como se vai chegar a este objectivo. Segundo e o mais importante: “(…) a república norte-coreana compromete-se a trabalhar para a desnuclearização completa da península coreana”. Crucialmente não se define o que se entende aqui por “desnuclearização”: Washington entende que o regime norte-coreano deve abandonar as suas ambições nucleares unilateralmente enquanto que, para os norte-coreanos, qualquer iniciativa nesse sentido deve envolver também a retirada da protecção militar e nuclear que os Estados Unidos dão à Coreia do Sul, nomeadamente dos 28,500 militares americanos que patrulham a fronteira entre as duas Coreias. A diferenca é básica: um lado fala apenas da desnuclearização da Coreia do Norte, o outro de toda a península coreana. Não há portanto garantias nenhumas de que estes dois pontos sejam alcançados de forma satisfatória.

Entretanto a China já reagiu. Como seria de esperar, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês veio dizer à Reuters, logo após a conclusão da cimeira, que a comunidade internacional deveria considerar levantar as sanções económicas impostas ao regime norte-coreano na sequência deste acordo de Singapura. Prepara-se de certo uma ofensiva diplomática chinesa nas Nações Unidas com este propósito e como de habitual os chineses nem aguardaram muito e já começaram a relaxar as suas sanções aos norte-coreanos, sempre pela calada e de forma discreta.

Claro que o futuro dirá se vai ser o cepticismo cauteloso da realpolitik ou o optimismo dos sonhadores que ganhará. Eu pessoalmente penso que foi game, set and match para Kim. Nao só se mantém no poder como agora tem acesso directo ao ego volátil do líder do mundo livre. Esta Pax Americana está mais frágil do que nunca.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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