Defeito de fabrico: Incapaz de pensar em manada

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Copyright Isabel Santiago Henriques

Talvez seja um defeito de fabrico. Com aroma de rebeldia e um suave espírito de contradição. Desde muito pequena, dizem, que tenho fobia à unanimidade.

Se no infantário, dizia que era “a voz do povo” e fazia comícios pela FEC (Frente Esquerda Comunista), não seria por acaso. Toda a gente que eu conhecia era mais virada para a direita. E assim fui crescendo, desalinhada do meu pequeno universo, mas feliz comigo própria. Levei com rótulos toda a vida mas raramente me senti ofendida. Nem especial, diga-se de passagem.

Ser-se chamado de “original”, como sabemos, é um guarda-chuva onde cabem todas as conotações, boas e más. Eu era a criativa, a diferente e até mesmo “antissocial”, disseram-me uma vez. Levei com estas denominações toda a vida, mas raramente me senti ofendida. Nem especial, lá está, entenda-se. E não é por mérito nenhum. Fora os meus pais que me fizeram assim.  A eleição de “miss extravagante”, na minha querida turma de liceu (a representação adolescente do sistema), aí pelos 14 anos, não terá sido o epíteto mais importante, mas ao menos livrou-me de ser a “miss limão”, sinónimo de antipatia.

Como toda a gente, sempre quis ser ouvida. Ou tida em conta, vá lá… Tudo isso, menos fazer parte de um grupo onde todos pensam pela mesma bitola. Ainda agora sou assim e reparo que seria bem mais aconchegante e fácil agrupar-me num mesmo diapasão. Excepto quando a selecção de Portugal joga, não tenho, à partida ou conscientemente, nada em comum com a pessoa do lado não ser a língua e, talvez, alguns modos de estar civilizados (como não cuspir para o chão, comer com as mãos ou outras coisas do estilo).

Por isso, sou a pessoa ideal para fazer de advogado de todos os diabos, a peça que empena a máquina ou a faz deslizar, a areia no sapato ou a amora em cima do bolo quando já não há mais cerejas. Não tenho prazer nenhum em dificultar a vida dos outros. Nenhuminha.  Zero. Rien de rien. Só não me peçam é para pensar do mesmo modo,  sempre e em todas as ocasiões. No plano profissional há quem goste de me ter ao lado, pois sabe que digo o que penso.  Às vezes precipitadamente, confesso. Financeiramente, seria muito melhor vestir algumas camisolas e entrar na manada do ser e do ter apenas para pertencer. As coisas mais importantes da vida, a amizade e o amor também não se escolhem.  Acontecem.

Mas porque não devemos nunca dizer nunca, talvez ainda esteja por nascer a manada que me faça encarreirar num grupo de pensamento único. Até lá, a minha única farda consciente é a da liberdade de pensamento. Como bem disse um dos nossos maiores portugueses, Fernando Pessoa: “A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.

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O meu único compromisso é com a verdade. Desde os 10 anos que quero ser jornalista. Licenciei-me em comunicação social e fiz a tarimba toda. Tive a sorte de trabalhar com quem mais admirei: a Margarida Marante. Com ela, descobri o prazer do debate e do confronto de ideias. E a conjugar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Uma era preciosa do jornalismo, cada vez mais difícil de fazer, apesar que muitos o neguem. Aos 47 anos, sinto-me salutarmente desconfortável com muita coisa. Receio a censura das ideias e dos actos pelo medo de outras ditaduras modernas: a do dinheiro sem valores e a da felicidade descartável. Politicamente, não consigo definir-me. Sou um híbrido geopolítico. Cresci no Porto mas migrei para Lisboa há 25 anos, de onde só sairei se for para o campo. Autora da rúbrica Defeito de Fabrico

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente texto. Ainda bem que assim és. O mundo precisa de pessoas com tal essência. Tirando a parte da simpatia comunista, nada contra, posso identificar me contigo. Ou com a tua escrita. Maluca é um adjetivo que sempre ouvi sem me magoar os ouvidos. Será por isso que sempre me senti livre?…

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