De bolos estragados a macaroons de luxo

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Nao é difícil a um cronista arranjar tópicos de observação ou inspiração hoje em dia. O mundo dá-nos doses contínuas, 24/7, de hiper-realidade e de crescente irracionalidade, desde as aventuras da criatura chamada laranja (não o filme do Kubrick mas o filme do Trump) até à mulher que matou o marido (ou vice-versa) triturando-lhe os orgãos genitais numa aldeia remota qualquer. Para mim isto é uma campanha coordenada para começar a preparar os humanos mais resistentes psicologicamente para a colonização de Marte, um treino acelarado e compreensivo.

A minha semana também teve a sua dose de hiper-realidade e irracionalidade. Vou chamar aos maus episódios que testemunhei de bolos estragados. Mas também houve surpresas positivas que aqui trato por macaroons de luxo, de preferência da Ladurée (publicidade gratuita, espero desconto e cartão de sócio), dado que não há melhor confeitaria à face do planeta. Então vamos lá à lista:

Bolos estragados (recomenda-se Rennie e jejum pelo menos por dois dias):

Bolos de casamento: vou-me casar em Agosto pela primeira (e espero única) vez. Com um homem, o meu príncipe inglês, com o qual estou (e)namorado há mais de seis anos. Começámos os dois há umas semanas a contactar várias pastelarias em relação ao bolo de casamento, para comparar coisas como preços, decorações e até se têm bolos sem gluten.

Uma a uma todas as pastelarias responderam-nos que já estão reservadas para todo o 2018. Soou-me estranho, um ano inteiro. Depois fico a saber por uma ex-colega de trabalho que um casal (heterosexual) amigo dela conseguiu marcar (depois de mim) a confecção de um bolo numa das pastelarias que contactei (para um casamento também em Agosto). Só para comprovar, envio outro e-mail a uma das pastelarias pretendendo ser o noivo de um casamento heterosexual e recebo a resposta que sim podem fazer o meu bolo, no problem.

Ou seja, vi-me de repente numa daquelas situações de flagrante discriminação como se vêem nas notícias (ainda esta semana mais um caso destes nos Estados Unidos chegou ao Supremo Tribunal, com o Supremo de lá a decidir em favor do pasteleiro). Também sei de casos semelhantes em Paris, Bruxelas e até em Lisboa. A minha primeira questão é: o que têm os pasteleiros de tão diferente de outras classes associadas a cerimónias de casamentos para serem sempre a única fonte destas reacções discriminatórias? No final de contas não tive um único problema em arranjar um hotel, fotógrafo, cabeleireiro para a cerimónia… São os pasteleiros por natureza mais religiosos ou facciosos?

O segundo pensamento é que de facto podemos mudar as leis todas e instituir igualdade de casamento e até a adopção por casais gay, mas, se as mentalidades individuais ainda não mudaram é um pouco como meter a carroça à frente dos bois. Em muitas áreas da igualdade temos em vários países uma legislação de 2018 para mentalidades de 1318, essa é a verdade nua e crua. Quanto a mim, vou tentar mais umas pastelarias e se não houver bolo não há. Aos quarenta anos já aprendi há muito tempo a não condicionar a minha felicidade às vontades, humores e crenças dos outros.

Brexit: para um processo que já começou há dois anos é no mínimo estonteante ver o quanto o governo britânico ainda está dividido sobre elementos essenciais, quanto mais sobre os secundários. Esta semana trouxe outro bolo estragado: era esperado que o governo de Theresa May publicasse a sua posição final em relação a que tipo de união aduaneira quer com a União Europeia (crucial para decidir a questão delicada da fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte). À última hora ainda se discutia uma possível demissão de David Davis (o ministro responsável pelo Brexit) porque a solução encontrada (mais outro adiamento temporal, desta vez até 2021, em que o Reino Unido vai continuar alinhado com as regras europeias) não incluía uma data limite precisa. No fim lá se concordou em 2021 (data completamente atirada ao ar, dado que ninguém sabe se mesmo aí o país já vai ter os mecanismos disponíveis para resolver este problema).

May fez o que ela sempre faz: empurrou o problema mais para a frente, sem o resolver verdadeiramente. Daqui a duas semanas discute-se em Bruxelas se esta “solução temporária” é aprovada. Se o for, May tem mais três meses até ao próximo Conselho Europeu no fim de Outubro. E vivemos assim, neste constante adiar de uma solução e posição governamental clara, algo que deveria ter sido definido à priori, antes sequer de as negociações terem começado. Nao é grande consolo olhar para a oposição, porque os Trabalhistas tambem estão divididos ao meio e têm a coerência de um alcoolizado às quatro da manhã. O sector empresarial desespera e aguenta como pode – no meio deste cenário é um milagre o Reino Unido continuar a crescer a 2% ao ano e com a taxa de desemprego mais baixa desde 1970. Mas até quando será possível aguentar esta incerteza?

Qatar: na terça-feira desta semana em que a inteligência nao abundou, o chefe executivo da Qatar Airways, uma das maiores companhias de aviação mundial, veio a público declarar que uma companhia aérea só pode ser liderada por um homem por ser um cargo “muito desafiante”. A afirmação foi recebida com choque na sala de conferência em Sydney onde o episódio se passou mas pelo menos demonstrou alguma coerência brutalista: a Qatar Airways é a mesma companhia que já despediu várias hospedeiras de bordo simplesmente por estarem grávidas e que tem cláusulas nos contractos de trabalho exigindo que as pobres hospedeiras só se podem casar se tiverem o consentimento prévio da companhia.

O problema na indústria da aviação vai muito para lá da Qatar: a própria Associação do Transporte Aéreo Internacional (IATA) é um bastião do machismo puro e duro a la Idade Neandartal: em décadas de funcionamento só teve uma única mulher como membro do seu Conselho Executivo. Para acalmar o furor mediático que se seguiu, o departamento de relações públicas da Qatar emitiu um comunicado, logo na quarta-feira, supostamente assinado pelo próprio chefe executivo, reiterando como acredita na “igualdade de género” e como foi sempre uma “pioneira nesse campo”. Foi tudo um “mau entendido”. Claro que foi e nós é que somos maldosos para não o perceber.

Macaroons de luxo (recomenda-se muitas caixas, sem limite):

Arábia Saudita: o reino do Principe Mohammad bin Salman emitiu as primeiras cartas de condução para mulheres e daqui a três semanas acabará o que é a única proibição a motoristas femininas ainda existente no mundo. Esta mudança vem na sequência da ambiciosa e radical agenda do príncipe para o país, com o nome de Visão 2030 (não, não é um anúncio à Óptica Essilor). Entre outras coisas, uma vasta privatização da estrutura da economia saudita (para 2019 está prevista uma das maiores ofertas em bolsa de sempre no mundo, cortesia da abertura do novo fundo soberano saudita, no valor de uns meros dois triliões de dólares).

Mas a parte mais interessante é a total revolução de regras e costumes sociais propostas pelo príncipe: os direitos da toda poderosa polícia religiosa foram restringidos, uma mulher foi nomeada pela primeira vez para chefiar a Bolsa de Valores saudita e desde Fevereiro que as mulheres podem abrir o seu próprio negócio sem precisarem de autorização masculina.

A abolição da proibição às mulheres de conduzirem é talvez a mudança socialmente mais simbólica. A Arábia Saudita é um país com uma rede de transporte pública muito limitada e practicamente inexistente nos pequenos centros e zonas rurais. O direito de guiar representa uma libertação radical para mulheres que querem ir trabalhar, encontrar-se com amigos, levar as crianças à escola ou simplesmente divertirem-se. Para um país em que as mulheres gastam mais de 25% do salário em contratarem um motorista ou um táxi porque não podiam guiar, este é um passo decisivo para uma sociedade mais livre. Tem sido tal a procura de cartas de condução que a lista de espera para os exames já se estende até ao fim de 2019 e as autoridades sauditas estão a contratar professores estrangeiros para responderem à procura. It is a small drive for Saudi woman but a big step for mankind.

Novo governo espanhol: o novo governo espanhol apareceu de forma invulgar. É chefiado por Pedro Sánchez do PSOE (que nunca foi deputado sequer) e resultou de uma moção de confiança no Parlamento ao governo de Rajoy e não de um voto nas urnas. Sanchéz tem apenas 84 deputados (numa câmara de 350) e vai ter de contar com o apoio do Podemos, dos radicais da Catalunha e de mais uns nacionalistas da praxe para passar a legislação mais básica. Vai ser um acto de malabarismo constante mas as surpresas nao ficam por aqui e a velocidade das mudanças em curso indica que a Espanha está a testemunhar o fim de uma época e não apenas um mero acidente de aritmética parlamentar.

Primeiro, Rajoy demitiu-se imediatamente da liderança do Partido Popular. Isso vai claro abrir uma disputa de liderança no PP e deixar durante pelo menos seis meses o Ciudadanos (que lideram as sondagens) como única oposição real ao novo governo. O Ciudadanos já exigiu (e vai continuar a exigir) eleições antecipadas, como seria de esperar. Se ganhar tornar-se-á o primeiro novo partido em Espanha a liderar um governo em mais de 40 anos.

Mas mais interessante que isso é a astúcia que Sanchéz revelou na escolha do novo governo. Nenhum ministério ou firme compromisso programático foi oferecido aos bascos ou aos pró-independentistas catalães, apenas a promessa de manter o acordado no Orçamento de 2018 (que inclui dinheiro extra para os bascos e os manterá devidamente quietos por pelo menos um ano). A nomeação de Josep Barrell como Ministro dos Negócios Estrangeiros é especialmente inteligente. Borrell é o único membro senior do PSOE que apoiou Sanchéz e foi um respeitado Presidente do Parlamento Europeu. Sobretudo, Borrell é um catalão extremamente crítico do movimento independentista. Numa só nomeação Sanchéz acalmou os receios tanto da EU como do PSOE de concessões súbitas à causa do separatismo catalão.

Como cereja no bolo Sanchéz nomeia o governo mais igualitário em género na história da democracia espanhola. Há no total onze mulheres ministras, incluindo as posições chave de Vice-Primeira Ministra e Ministra do Orçamento, e apenas sete homens no governo, um dos quais um astronauta. Todos de competência reconhecida e não meros nomes para preencher quotas: por exemplo, a nova Ministra do Orçamento (Maria Jesus Montero) teve um papel-chave na redução substantial da dívida pública da Andaluzia nos últimos anos e é um nome chave na toda poderosa secção andaluza do PSOE.

Tessa Jowel: a antiga ministra da Cultura de Tony Blair morreu de cancro cerebral em Maio. A forma como se morre é muitas vezes a verdadeira marca da elegância interior de uma pessoa. Tessa deu-nos no último ano de vida duas lições magistrais.

Primeiro, compareceu numa sessão comovente no Parlamento umas escassas semanas antes de morrer, onde, embora já claramente muito debilitada, continuou a sua campanha para o acesso a mais tratamentos pioneiros para o cancro no NHS (o serviço nacional de saúde britânico). No fim foi aplaudida de pé durante minutos por ambas as bancadas políticas (algo que acontece muito raramente). O sentido de serviço e de combate público até ao fim, no matter what, admirável.

A segunda lição veio cortesia do programa especial Panorama na BBC1: “Tessa Jowell: her last campaign” (uma maravilha de produção televisiva que recomendo ver e guardar). O documentário foi filmado durante dois meses, até uma semana antes da morte de Tessa. Nele vemos o combate final da ex-ministra por angariar mais fundos para a luta contra o cancro e sobretudo pelo acesso dos mais desfavorecidos a tratamentos inovadores. Mas também a vemos a acompanhar a família, incluindo o nascimento do seu último neto e a nem por um segundo se queixar da sua situação, numa demonstração de altruismo raríssima nos nossos dias. É uma lição profunda sobre a importância de viver no momento presente, sem nostalgia pelo passado ou ansiedade pelo futuro, em paz e felicidade.

Vai fazer muita falta a energia e exemplo cívico da Tessa na vida pública britânica.

 

 

 

 

 

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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