Vogue e a política (ou: Dois universos de que gosto emparelhados)

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As incursões da revista Vogue pela política têm sido azaradas.

Em dezembro de 2007, a revista foi buscar duas mulheres elegantes, bonitas e promissoras da política americana, uma democrata e outra republicana. Vestiram-nas, maquilharam-nas, fotografaram-nas. A democrata era Kathleen Sebelius, na altura governadora do Kansas e que em 2009 foi a espécie de ministra da saúde de Obama (secretary for health and human services). Mas quem levantou problemas foi a republicana selecionada: Sarah Palin. Em 2007 era apenas uma governadora do Alaska com fama de aguerrida, uma mulher bonita de quarenta e poucos anos que trazia sangue novo à política. Sarah lá andava pela neve, gira, com palavras benignas da Vogue a acompanhar.

A desgraça veio no verão de 2008, quando Palin foi escolhida por McCain para ser a sua candidata a vice-presidente. Obama ganhou as eleições, toda a gente sabe, mas naqueles meses brotou um fenómeno de palinmania que por sua vez gerou a moda de qualquer pessoa de bem ficar horrorizada com Sarah Palin. A inexperiência da candidata era notória – numa célebre entrevista com Katie Kouric não conseguiu dizer que jornais costumava ler, noutra mostrou-se desconhecedora da dourina Bush das guerras preemptivas – e já vinha com os argumentos (agora fulgurantes) dos media parciais, dos jornalistas injustos para os republicanos, blablabla. Também sofreu, é certo, o escrutínio cruel e injusto e sem tréguas que se dá às mulheres na política. Foi tratada como uma mulher bonita e burra – como se muitos congressistas e senadores e governadores não fossem tão ultramontanos como Palin.

O embaraço da Vogue foi enorme. Anna Wintour, a diretora da revista, era apoiante de Obama de primeira hora, organizou vários eventos de angariação de fundos para o candidato democrata, o corpo editorial acompanhava a sua líder. Apesar de ter sido a primeira publicação de cobertura nacional (e internacional) a apresentar Palin ao mundo, e de em todos os perfis de Palin tal ser referido, a Vogue garantia no verão de 2008 que nunca vira nada de especial em Palin – era simplesmente uma republicana tão insuportável como as demais e uma péssima escolha de McCain.

O segundo episódio foi mais estrondoso. Em fevereiro de 2011, para a edição de março desse ano, a Vogue publicou uma extensa peça sobre Asma Al-Assad chamada poeticamente A Rose in the Desert. Era claramente laudatória, com fotografias do casal Assad sentado no chão da sua casa a brincar com os filhos, dando ideia de um casal moderno e bastante próximo das ideias ocidentais.

Houve ranger de dentes e rasgar de vestes com esta peça de propaganda. Na edição seguinte uma expatriada síria contava como um comerciante de Damasco havia sido executado porque um dia a tinha salvo de ser raptada para violação por um ministro do regime. Mas viria pior. No mês seguinte explodiu a primavera árabe, engalfinhou a Síria e não é preciso recordar os mortos e os ataques com armas químicas e os refugiados da guerra naquele país, pois não?

A Vogue apagou do site a elegia aos Assad rapidamente. Qual ovelha negra de uma família bem, ou Voldermort em Hogwarts, este pequeno percalço passou a fingir-se que não existiu e é proibido referi-lo. Mas a Vogue nunca se livrou da fama de se ter deixado ser agente de propaganda de um regime ditatorial. (Se a situação atual na Síria é pior ou não não vem para este caso.)

Claro que houve boas experiências. Conheci a senadora Kirsten Gillibrand numa peça da Vogue. Do melhor que li de Rand Paul foi lá. A peça sobre Debbie Wasserman Schultz criou polémica só porque a democrata estava tão produzida e photoshopada que ninguém a reconhecia. Os esforços para eleger Hillary em 2016 – bem como mais um tratamento de silêncio à fenomenalmente bonita mulher de Trump, a ver se não se tornava realidade o que acabou por acontecer (e solidarizo-me tanto com os desejos de então como com o atual dismay da Vogue) – foram inglórios.

vogue arabia

No entanto por estes dias a Vogue, agora da Arábia Saudita, reincidiu. Na capa da revista aparece a princesa saudita Hayfa Bint Abdullah Al Saud maquilhada, de cara à mostra, com uns fabulosos botins brancos de salto alto, ao volante de um carro descapotável encarnado, glamourosa até ao osso. Claro que se pode entender a edição como um apoio da Vogue – e de parte da família real – à modernização do país e ao alargamento dos direitos das mulheres sauditas. Em todo o caso, havendo várias ativistas dos direitos das mulheres presas por exigirem que as sauditas possam guiar carros, e sendo a família real a originária da proibição, as críticas são uma inevitabilidade. Na capa da revista deviam estar as ativistas presas, dizem. E é um apagamento do facto de várias destas mulheres terem sido presas recentemente, num novo crackdown aos pedidos de cumprimento dos direitos humanos.

Há quem argumente que a Vogue se devia concentrar na moda e na sociedade e deixar a política para os crescidos. Por mim, prefiro que a Vogue continue a escrever sobre tudo. As fotografias são sempre repenicadamente cuidadas e os textos impecavelmente escritos. Por estes dias no site americano podem ler-se, logo em cima de tudo, quatro textos sortidos sobre a necessidade de controlo de armas e a iníqua NRA. Antes continuar assim, mesmo se ocasionalmente a catástrofe acontece. Afinal, a quem nunca?

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Maria João Marques
Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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