A culpa? Que morra sozinha.

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A primeira vez que senti culpa ainda estava na maternidade.

Na primeira noite a seguir ao nascimento da minha filha, ainda com o efeito da epidural e de todas as drogas que nos dão a seguir à cesariana, eu dormi cinco horas seguidas e a minha filha, no berço ao lado da minha cama, dormiu também. Eu ia abrindo os olhos, mas a minha força de vontade não era suficiente para me manter acordada. Quando acordei senti-me a pior das mães e ainda só era mãe há menos de vinte e quatro horas.

Na consulta com a pediatra para nos dar alta, fui informada que a minha filha tinha perdido muito peso. Ela não estava a mamar o suficiente e eu não tinha percebido – nem eu nem os enfermeiros. De cada vez que os chamava, porque ela se irritava com a mama ou porque passava horas agarrada a mama, a única coisa que me diziam era que eu tinha imenso leite, para continuar a insistir. E eu insistia, insistia, insistia, mas a miúda estava a chuchar e não a mamar.

Senti-me mais uma vez a pior mãe do mundo. Como é que eu não percebi que ela não estava a mamar? A amamentação não era aquela coisa especial entre mães e filhos? Que raio de mãe eu ia ser? Ao quarto dia toda eu era culpa, olhava para a minha filha minúscula e chorava enquanto lhe dava biberons de leite adaptado para ver se ela ganhava peso.

Ganhou peso, tivemos alta ao final do dia e nos dias seguintes eu passava o tempo a querer pesá-la. Entre a guerra para ela mamar e os biberons de LA, eu quase enlouquecia de culpa. Ao fim de um mês deixei de dar mama e passei exclusivamente para o LA.

A hora do leite deixou de ser uma guerra, ela continuou a ganhar peso e eu deixei de me sentir culpada.

Desde essa altura que tento viver a maternidade sem o peso da culpa. Tento estar sempre consciente que faço o melhor que consigo e que tomo as melhores decisões com as condições que tenho. Não dou importância às opiniões dos outros, as decisões para a nossa vida são tomadas apenas a dois, tento existir para além dos filhos e não os compenso por algum mal imaginário que lhes possa ter infligido.

Os filhos sugam a nossa energia desde o primeiro dia, esgotam-nos física e mentalmente e acrescentar a essa equação a culpa e o sacrifício, é como ter uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer momento.

A culpa? Que morra sozinha.

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