Quo vadis Europa?

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“Europe was created by History. America was created by Philosophy. (…) Europe will be stronger precisely because it has France as France, Spain as Spain, Britain as Britain, each with their own customs, traditions and identity.” Margaret Thatcher, discurso de Bruges, 20 Setembro 1988

A União Europeia (ou a Comunidade do Carvão e Aço como se chamava em 1951), formada das ruínas de duas guerras destrutivas, tanto materialmente como espiritualmente, com a ajuda dos milhares de milhões de dólares do Plano Marshall americano, assentou desde o início numa contradição fundamental de objectivos entre as suas duas potências fundadoras.

Enquanto a Alemanha via na Comunidade uma forma de redenção pelo Holocausto e um mercado para estimular a reconstrução da sua economia, a França tinha desígnios mais utópicos e grandiosos: a Comunidade seria a forma de moderar a Alemanha e de restaurar a grandeza francesa (largamente perdida desde 1814) através da construção de um projecto federal europeu. De grossso modo os outros países fundadores funcionavam como satélites e tinham objectivos idênticos: Holanda alinhada com a Alemanha e a Itália, Bélgica e Luxemburgo mais alinhados com a França.

Os primeiros trinta anos da Comunidade foram largamente estáveis e o boom do pós-guerra (les treinte glorieuses como os franceses chamam ao período 1945-73) permitiram ocultar esta contradição inicial e essencial. O projecto tornou-se a Communidade Económica Europeia (a famosa CEE, na qual os G.N.R de Alexandre Soares tanto queriam ver Portugal) e apartir de meados dos anos 70 começou um alargamento acelarado (novamente com objectivos políticos para os franceses mas puramente económicos para os alemães). O Reino Unido foi admitido no clube (depois de muita resistência francesa) e nos anos 80 abriram-se as portas aos países mediterrânicos e do Sul que tinham acabado de sair de ditaduras opressivas – Grécia, Portugal e Espanha. Esta junção de novos membros trouxe mais uma série de objectivos diferentes e disssonantes ao “projecto europeu”: por exemplo, enquanto o Reino Unido queria simplesmente moderar a ameaça de um novo poder hegemónico na Europa, para os países do Sul a CEE era a promessa de renovação nacional e do paraíso material: estar na CEE era só por si estar no “pelotão da frente” como o professor Cavaco martelava constantemente (embora nenhum dos países do Sul tivesse sequer uma base industrial e científica decente no início dos anos 80).

O “projecto europeu” entrou então em fase de quase alucinação legislativa, largamente estimulada pelos franceses (e encarnada no uber-burocrata Jacques Delors): lançou-se o mercado único com a livre circulação de bens e pessoas; o espaço Shengen e as bases para uma moeda única (uma concessão germânica aos franceses por terem dado a sua benção à reunificação alemã). De repente, países tão díspares a nível económico e fiscal como a Finlândia e Portugal partilhavam uma mesma moeda, embrulhada na euforia do canapé e do champagne do final do milénio. Nada disto foi submetido a mínima consulta popular (não é por acaso que é exactamente por volta desta altura que o eurocepticismo inglês comeca a emergir de forma mais ruidosa e que o UKIP é fundado).

O novo milénio começa em modo idêntico de corrida cega para a utopia perfeita – a moeda única é lançada sem sequer ter um mecanismo comum de garantia de depósitos ou uma entidade como o FMI para resolver crises cambiais e orçamentais (todos sabemos como estas deficiências agravaram ainda mais a crise do euro entre 2008-13) e a União Europeia decidiu alagar-se rapidamente a leste, englobando tudo e mais alguma coisa desde a Lituânia à Bulgária (a um dado ponto até se discutia a entrada da Georgia, para fúria da Rússia). Esse alargamento trouxe mais um ingrediente para esta sopa já muito turva de vontades: os países do Leste queriam os fundos europeus e a proteção dos exércitos francês e britânico contra a ameça russa, mas de modo algum partilhavam os valores da democracia liberal do Ocidente (os Victor Urbans da Hungria e o regime autoritário da Polónia sempre lá estiveram mas, mais uma vez, a Europa ignorou-os em nome do “alargamento”).

Nesta ópera em vários actos segue-se o acto que se pode chamar de “A Realidade Chega Sempre” e que começou em 2008. A crise financeira global arrastou várias economias e as insuficiências do euro tornaram-na muito pior e mais prolongada na eurozona do que, por exemplo, nos Estados Unidos ou no Reino Unido. A Alemanha sempre entendeu o projecto europeu como um conjunto de nações responsáveis debaixo de regras comuns e nunca uma questão de tesouraria comum. Por isso demorou um total de sete anos (até 2015) a dar a permissão ao Banco Central Europeu para começar uma política de estímulos monetários (que, por comparação, tinha começado imediatamente em 2008 no Reino Unido, Estados Unidos, Japão e China).

O resultado foi presivelmente devastador: a Grécia perdeu um terço do seu produto nacional em oito anos e só em 2018 é que países como Espanha e Portugal chegaram ao seu nível de riqueza de 2007. A França, pela voz do novo Presidente Macron, tenta agora reformar a arquitectura mais que deficiente do euro, com o apelo a um orçamento, tesouraria e garantia bancária unicos. Tudo isto é tabu para os alemães (que foram devastados pelo regime hiper-inflacionista da república de Weimar) e acresce que Merkel perdeu toda a sua força política para a emergente extrema-direita da AfD. Qualquer probablilidade de compromisso em grandes reformas a esta “união monetária” é por isso limitadíssima, para não dizer mínima.

É neste contexto que a recente eleição em Itália é mais um acordar para a realidade. O novo governo italiano é uma combinação no mínimo excêntrica do Movimento Cinco Estrelas (populismo de extrema-esquerda, maioritário no Sul do país) com a Liga (populismo de extrema-direita, preferido no Norte). Propõe entre outras coisas: mais despesa pública, impostos mais baixos e redução substancial da imigração (Itália foi um dos países mais afectados pela crise dos refugiados). Numa versão original do programa de governo chegou a ser proposto um referendo à saída da Itália do euro – essa ideia foi agora eliminada, mas isso não retira o facto de que esta coligação é o equivalente a um bulldozer guiado por um motorista bêbado a alta velocidade através de tudo quanto são as regras orçamentais, fiscais e de movimento livre da zona euro e da UE.

A reacção de Bruxelas tem sido, como habitual, lenta e cínica – foram repetidos os mesmos avisos da importância da disciplina orçamental que brindaram a chegada do Syriza ao poder na Grécia em 2015. A diferença é que Itália não é de todo a Grécia. A economia italiana é dez vezes maior que a grega e a sua dívida pública (2.3 triliões de euros) sete vezes maior. Para além do mais Itália é um dos países fundadores da União Europeia. Pondo simplesmente: a Itália é grande demais para falhar mas também pode ser grande demais para ser salva.

Ao contrário da surpresa encenada de Bruxelas esta deriva italiana para os extremos era expectável: entre 1997 e 2017 a riqueza per capita dos italianos só subiu 3%, um resultado ainda pior que o dos gregos (até Portugal, com um crescimento anémico, viu este indicador subir 23% em idêntico período) e o desemprego jovem chega aos 50% em várias zonas do país (nomeadamente na parte mais pobre do Sul). A crise dos refugiados também alienou os italianos da “Europa”: numa sondagem recente da RAI, mais de 85% dos italianos disse sentir que a UE largamente deixou a Itália aguentar sozinha e sem o mínimo apoio logístico a autêntica invasão de novos residentes. Junte-se a isto um desprezo generalizado do eleitorado pelo tradicional aparelho político e todos os ponteiros apontavam para uma mudança radical no relógio político italiano.

Este desastre é responsabilidade conjunta da União Europeia e de Itália note-se. A UE não conseguiu criar suficiente procura interna na zona euro desde a crise de 2008, primariamente devido à resistência alemã e nórdica de sequer falar sobre a necessidade de estímulos ou de programas de investimento para compensar a contracção dos países do Sul. Por outro lado, os próprios italianos não conseguiram ou não quiseram compreender que, para viverem numa moeda única com a Alemanha, teriam de embarcar em reformas económicas e institucionais radicais. Chegamos mais uma vez à profunda contradição de objectivos, vontades e meios entre diferente estados membros que afecta a União Europeia desde a sua origem em 1951.

O que pode acontecer agora? Os juros da dívida italiana já estao naturalmente a subir (arrastando também os de outros países do Sul como Portugal, a geringonça que note). A presunção dos euro-optimistas é que este inconveniente vai ser tratado e resolvido como a UE fez com o Syriza na Grécia: um pouco de pressão monetária resultando na capitulação do novo governo italiano. Sucede que a realidade é diferente: nao só a Itália tem reservas monetárias para aguentar um período muito mais longo de pressão, como pode recorrer à sua arma nuclear: desfalcar no trilião de euros de dívida detida pelos parceiros europeus (nomeadamente os alemães). Se a UE podia facilmente acomodar o colapso grego não pode de todo acomodar o colapso italiano.

A realidade é que esta nova crise na zona euro só vai poder ser resolvida se a Itália começar a crescer e os seus cidadãos recuperarem confiança na sua vida e na entidade abstracta que é a Europa. A União Europeia precisa neste momento de fazer algo que nunca fez: reconhecer a diferente realidade italiana e ser flexível sob condição de algumas cedências da parte do novo governo de Roma. Se não o fizer os danos colaterais para a economia e sociedade italiana e para o “projecto europeu” podem ser colossais.

Todos diferentes, todos iguais? Vai ser um Verão escaldante para os lados do Palazzo Chigi.

 

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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