Harry

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 O maior legado que uma mãe pode deixar nesta terra é uma educação baseada nos afectos. 

 Podia ser propaganda presidencial, mas não é. 

É mesmo um artigo sobre a imortalidade dos valores.

O Princípe Harry casou no sábado passado, mas o seu percurso tem sido sempre especial para quem o segue. Quem o viu, pequenino, a seguir o caixão da mãe soube imediatamente que aquele dia o iria mudar para sempre. E como bem lembrou o motorista de Uber da semana passada (um dia escrevo um livro intitulado “as minhas conversas com motoristas de Uber), a dor apresenta-nos sempre uma encruzilhada entre o bem e o mal; entre o isolamento ou a compaixão; entre a sede de afectos ou a rejeição dos mesmos. 

Esta encruzilhada para uma criança inglesa às portas da adolescência é especialmente dura. Para uma criança rodeada pelo establishment monárquico inglês, poderia ter sido trágica. 

Não o foi, também, porque a morte de Diana serviu para acordar a família Real. O Princípe Carlos tem aqui crédito por ter feito o melhor que pôde para proteger os filhos, para ser companheiro. Às vezes é necessária uma tragédia para mudar comportamentos.

Muita gente diz que os Príncipes não tinham outra hipótese senão aguentar. É falso. Como a história mostra, a imprensa protege a família Real até deixar de proteger a família Real. Se Harry ou William tivessem seguido caminhos condenáveis, todos teríamos sabido. Tudo sempre se sabe, especialmente na família Real. E nunca nos esqueçamos de Eduardo VIII, de Jorge III e da restante panóplia de membros da família real que caíram na desgraça. 

Os pequenos príncipes rejeitaram outros caminhos porque sempre honraram a tal educação baseada nos afectos. Continuaram as suas vidas, tornaram-se ainda mais amigos, construindo uma irmandade fortíssima com recurso ao sarcasmo britânico, que não é mais do que uma forma atabalhoada de dizer que se gosta. 

Mas Harry, o extrovertido, era feito do material da mãe. Teve de viajar, de conhecer mais, de ajudar mais. E é esta característica que faz de Harry um homem encantador. Que também fez com que o mundo inteiro se apaixonasse por Diana. É a transformação da dor em compaixão que os faz fascinantes. Defeitos, também os hão-de ter – os de Diana, soubemo-los todos, martelados até à exaustão – mas os afectos que exibem transbordam e contagiam o mundo inteiro. Esta mãe e este filho tocam o mundo porque se deixam tocar por ele. E isto é nada mais do que revolucionário num mundo com tanta gente cheia de viagens, mas sem a capacidade de conexão. Com tantos kilómetros, mas tão poucas estórias. Com tantos conhecidos e tão pouca compaixão. Precisamos tanto de referências neste último quesito, venham de onde vierem. Se tiverem a coragem de impor o amor e a diversidade num círculo tão fechado, ainda melhor. 

Sem o saber, Diana sacrificou-se por Harry. Com o caminho desbravado pela mãe, o Príncipe preferido da Rainha pôde livrar-se das críticas e da pressão mediática, conseguindo ter uma vida relativamente normal. É nesta rotina de voluntariado e altruísmo que conhece o amor da sua vida. E com uma calma e graça que Diana não pôde ou não conseguiu ter, consegue o inimaginável. 

Primeiro, junta-se ao irmão e abre a porta à vulnerabilidade com um documentário sobre Diana que é uma declaração de amor inédita para os britânicos. De seguida, cria os jogos Invictus, onde celebra a vida para além da incapacidade, homenageando, finalmente, as Forças Armadas e os sacrífios dos militares nas últimas guerras. Promove ainda, com o irmão e a cunhada, a campanha Heads Together, que consciencializa o povo britânico para a saúde mental, quebrando mais um tabu, falando, mais uma vez, do luto que fizeram, da ajuda que tiveram, e das infinitas possibilidades de quem tem doenças mentais. Juntos, Harry, Kate e William deram milhões a associações relacionadas com o tema. Foram a programas de rádio. Fizeram corridas, usaram fitas pirosas e abraçaram os finalistas da maratona dedicada ao tema.

Finalmente, Harry consegue, no último Sábado, casar feliz. Aceitando não só a cor da pele do amor da sua vida, mas a cultura que lhe vem no sangue, os amigos que trouxe na bagagem, o pastor que não se calava e que ia pegando fogo à capela de Windsor com as palmadas no púlpito carregado de velas cambaleantes. O coro e o violoncelista, que, pessoalmente, me encheram as medidas. 

É pena que as pessoas continuem a subestimar esta família. Que achem que o impacto mediático orientado para os valores não tem importância. Que continuem a achar que a inspiração não é o motor do mundo. Que estes exemplos não operam mudanças. No fundo, estão a ser como os mais radicais monárquicos britânicos, avessos ao valor simbólico da chegada da diversidade.  E enquanto os pessimistas e os críticos continuam sem entender, o resto do mundo segue, inspirado e em festa, a querer, à sua escala, fazer mais e melhor pelo próximo. 

Longa vida à Rainha, que, gostando ou não dos novos tempos, os autoriza. Felicidades aos noivos. 

E que o exemplo de Diana dê ainda mais frutos, não só nas vidas deles, mas também nas nossas vidas. 

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Teresa Morais tem 35 anos, é jurista, tradutora e activista. Depois de viver em São Paulo e em Londres, voltou, há dois anos, à Lisboa que a viu nascer. Gosta de biografias, boas revistas, boas séries, bons políticos e bons amigos. Ouve música de todos os estilos, a toda a hora, em qualquer lugar. Está no Capital Magazine por acreditar ser esta a hora de falar de causas e de fazer melhor política em Portugal.

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