Hamlet on heroin

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“He had injected whisky, watching his burned vein turn black under the skin, just to satisfy the needle fever. He had dissolved cocaine in Perrier because the tap was too far for his imperious desire…He had woken up after passing out for thirty hours, the syringe, still half full of smack, hanging loosely from his arm…” Bad News, Edward St. Aubyn, 1992

Martin Scorcese disse recentemente que nunca se produziu drama de tão boa qualidade para televisão como agora. Ele próprio é parte interessada: produziu o Boardwalk Empire e está correntemente a conceber uma nova série sobre Júlio César com Michael Hirst (dos Tudors). Toda uma nova forma de produzir e ver televisão – de que a Netflix é obviamente o símbolo mais potente – abriu as portas à criatividade e a todo o tipo de histórias, mesmo aquelas que apenas há 10 anos eram descontadas como não comerciais.

Uma dessas histórias é Patrick Melrose, a adaptação dos cinco livros de Edward St. Aubyn, estreada esta semana numa co-produção da Sky Atlantic (Reino Unido) e Showtime (Estados Unidos). O protagonista é o grande Benedict Cumberbatch e logo nos primeiros dois minutos sabemos que estamos a embarcar numa experiência única: informado por telefone da morte do pai em Nova Iorque, Melrose arrasta uns “obrigados” dopados, agarra a sua seringa de heroína acabada de cair no chão e sorri. Segue-se um vortex de valium, speed, cocaína, quaaludes e mais heroína, à medida que Patrick viaja de Londres para Nova Iorque para buscar o corpo do pai.

Os livros de St. Aubyn são notoriamente difíceis de adaptação para televisão porque são uma mistura pouco habitual de abuso sexual (o pai de Patrick viola-o repetidamente desde os três anos, o tema central do primeiro livro Never Mind), vida nos altos escalões da sociedade londrina e nova-iorquina e consumo extremo de estupefacientes. Mas o que os torna ainda mais poderosos é o facto de eles serem um retrato quase decalcado da própria vida excêntrica de St.Aubyn, uma sublimação da dor intensa do escritor através da sua obra.

Talvez nada em St. Aubyn pudesse vir a ser alguma vez “normal”: o pai, Roger, era um médico e ex-soldado alcoólico, educado em Eton e descendente de uma linha de barões estabelecida em 1671. A mãe, Lorna, vinha de uma família americana extraordinariamente rica: Cole Porter estava a tocar piano no quarto ao lado quando ela nasceu e pessoas como Coco Chanel, Scott Fitzgerald e Salvador Dali eram amigos da família. St. Aubyn nasceu em 1960 e passou a maior parte da sua infância em Le Plan, a propriedade da família em França que incluía sete casas, um convento e vários terrenos.

St. Aubyn foi violado por Roger até 1968, altura em que os pais se divorciaram e começou a injectar heroína aos 16 anos. Aos 17 anos vivia em hotéis entre Nova Iorque e Paris e tinha por hábito agarrar de olhos fechados uma mão cheia de comprimidos e tomá-los sem saber o que eram. Aos 18 ganha uma herança de milhões de dólares da avó e passa a gastar mais de 5000 dólares por semana em drogas. Nessa altura aterra em Oxford onde foi colega de classe de Hugh Grant e Nigella Lawson. Tornam-se notórias as suas overdoses, numa das quais foi salvo da morte pela própria Nigella.

Após a morte do pai em 1985 St Aubyn fez um pacto – ou publicava um livro ou se suicidava. A última vez que tomou heroína foi em 1988 quando começou a escrever Never Mind e acabou por escrever mais quatro livros da série Patrick Melrose (incluindo o bestseller Mother’s Milk de 2006). Pelo menos desde 1992 que várias produtoras se mostraram interessadas em adaptar os livros para a televisão mas as condições ideais nunca estiveram reunidas…até agora.

Isto traz-me de volta a Benedict Cumberbatch. Há uma confluência curiosa nos três papéis-chave da carreira de Cumberbatch: um prodígio adicto às drogas (Sherlock), um milionário arrogante (Parade’s End) e um jovem enloquecido e obcecado pela morte do pai (Hamlet). Este papel de Patrick Melrose é uma combinação extraordinária dos três. Logo no primeiro episódio (Bad News), Patrick pergunta-se: “Como é que ele podia resolver um problema através do pensamento quando o problema era a maneira como ele pensava?” o que é quase um decalcamento do famoso “to be or not to be” hamletiano.

O episódio inicial é uma demonstração das qualidades superlativas de Cumberbatch como actor: um monólogo quase contínuo de dor, necessidade, raiva, tremor, prazer, obsessão, sarcasmo, ocasionalmente interrompidos por episódios de comédia surreal como a aparição no funeral errado ou a compra de drogas no lado menos bom de Nova Iorque. Raramente Cumberbatch esteve melhor e o mais gratificante é que nada nesta adaptação tenta retratar este millieu milionário como agradável – tudo é grotesco, extremo, disfuncional tal como nos livros originais (Hugo Weaving e Jennifer Jason Leight nos papéis de pais de Patrick, estão igualmente soberbos).

A série continua por outros cenários – França, Londres, restaurantes glamourosos em Nova Iorque, condensando o que são 800 páginas de livros e mais de 50 personagens de forma notavelmente sintética. No fundo a série (tal como os livros) é um trabalho magistral sobre redenção– Patrick não está à procura de esquecer o passado mas de aprender a viver com o passado, um dos maiores desafios existenciais para qualquer pessoa. Para St.Aubyn é uma viagem ainda mais complexa: se os livros foram a sublimação das suas memórias de infância, a série televisiva é uma dupla sublimação, cada vez mais distante da memória inicial.

Voltamos ao to be or not to be hamletiano. Daí a universalidade de Patrick Melrose.

 

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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