Muita força para pouco dinheiro

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Fotografia de Eduardo Gageiro

notícia é de hoje: em média, um trabalhador português precisa de trabalhar 46 anos para ganhar o que o CEO da sua empresa (das que constam do PSI20) ganha por ano. Há três anos, essa diferença era menor: os gestores ganhavam 33 vezes mais que a média dos trabalhadores. Significa isto que o custo com os CEO subiu 43% (uma média de 996 mil euros brutos, quando há três anos era de 708 mil euros) e que o custo médio com os funcionários se manteve abaixo dos 22 mil euros anuais.

Vejamos outros dados.

Segundo o Pordata, o ordenado médio em Portugal (dados de 2016), incluindo horas extra, subsídios e prémios, é de 1.107,90 euros brutos (13.294,80 euros/ano). Em média, o ordenado dos quadros superiores é de 2.366,90 euros brutos (28.402,80 euros/ano). Os profissionais qualificados não passam dos 901,40 euros brutos (10.816,80). É comparar com os 996 mil euros brutos dos CEO das empresas do PSI20.

Claro que cabe aqui lugar à discussão sobre a teoria do mérito e da responsabilidade. Ao discurso que diz que no sector privado os gestores podem ganhar o que quiserem. Que se lhes pagam é porque é merecido. Talvez seja. Mas num país pobre como o nosso, numa terra onde a maioria das pessoas ganha tão mal e se esforça tanto para que o salário chegue ao fim do mês, assimetrias salariais deste género são a última coisa de que precisamos. Como é que se explica ao trabalhador dos 700 euros portugueses que o seu CEO ganha 46 vezes mais, com um salário de quase um milhão de euros que não tem nada de português?

É evidente que estas diferenças salariais causam mau estar social. Que geram, paradoxalmente, revolta e cansaço. São uma das grandes causas do desgaste da coesão social e, até certo ponto, do domínio da esquerda no que diz respeito à agenda social – já que a direita tem preferido olhar para esta questão como quem assiste à normalidade. É aqui que mora um dos primeiros passos do populismo. Depois não se venham queixar.

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32 anos, casado, pai de uma filha. Advogado e ex-assessor no XIX Governo. Colaborei, enquanto jurista, na redacção do livro “O Inimigo em Casa – Dar Voz aos Silêncios da Violência Doméstica” e escrevi o artigo “A Liberdade não está a passar por aqui” para o livro “Troika Ano II – Uma visão de 66 cidadãos”. Escrevo no Observador sobre o sistema político e a justiça.

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