When Harry met Meghan

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O casamento do Príncipe Harry e de Meghan Markle, a ex-actriz americana (o que vai ser da série Suits sem ela?) é fascinante de observar a vários níveis, se uma pessoa vir para além do folclore das canequinhas com imagens do casal, das entrevistas mais ou menos pirosas à Hello! ou da cobertura televisiva quase reverencial.

A família real britânica funcionou sempre como uma janela para o estado da psique nacional e tem estado à procura de um novo papel desde o colapso do Império Britânico no fim dos anos 40. Cada casamento real, sobretudo os dos membros da família de estatuto mais importante, reflectiu exactamente o estado da sociedade no momento do evento e sobretudo as suas aspirações para o futuro.

O casamento de Isabel II com o Príncipe Filipe em 1947, logo após o fim da guerra, aconteceu num clima de “austeridade” e foi organizado de forma altamente cerimonial mas ao mesmo tempo inovadora (a primeira transmissão em directo pela BBC foi exactamente a dessa cerimónia). A mensagem era de renovação dentro da continuidade e a própria lua de mel do casal, que teve lugar na Escócia, reflectiu o tom nacional de frugalidade e poupança nesses anos do pós-guerra (as férias no estrangeiro só se começaram a massificar para os britânicos já os anos 60 iam bem avançados).

O seguinte blockbuster em forma de casamento real foi o do Príncipe Carlos e Diana Spencer em 1981. Curiosamente, embora a temperatura económica do país também fosse de recessão e de austeridade na altura, este casamento foi o espectro oposto do de Isabel II. Em vez de se casarem como tradicionalmente em Westminster Abbey, a cerimónia teve lugar na Catedral de São Paulo, dado que a intenção era convidar quanto mais dignitários possíveis (3000 no total).

O famoso vestido de casamento de Diana, rotulado de “conto de fadas”, tinha mais de 8 metros de cauda, bordados intricadíssimos e um bouquet gigantesco. O mote geral era de escapismo hedonista e atravessava a nação toda, desde os grupos pop New Romantics que dominavam as rádios e faziam esgotar os stocks de make-up (os Spandau Ballet, os Duran Duran, os Visage) até à languidez decadente do Brideshead Revisited na televisão. Curiosamente o evento foi marcado também por um acto premonitório quando Diana não incluiu nos votos de casamento a tradicional promessa de “obedecer”. O mote estava dado para o que seria uma década de excessos (yuppies, enchumaços, champagne, Dinastia) e um divórcio turbulento e ultra-mediático (curiosamente o pico de taxas de divórcio no Reino Unido foi também registado nas décadas de 80 e 90).

O que nos diz então este casamento de 2018 e sobretudo será que reflecte o ethos da sociedade britânica agora mais fragmentada que nunca da mesma forma que os anteriores? A grande novidade é obviamente o facto de ser o primeiro casamento inter-racial nos altos escalões da monarquia. Meghan é talentosa, inteligente, industriosa, glamourosa mas acima de tudo é uma afro-americana mestiça orgulhosa da sua etnicidade.

Enquanto a recepção global foi calorosa (a Rainha Isabel II deu a autorização a Harry para se casar com Meghan em 30 segundos e sem hesitação), houve reacções da elite e oligarquia britânica que ilustram como a questão racial ainda não é pacífica no Reino Unido. Rachel Johnson, a irmã de um certo Boris, escreveu sobre o “DNA rico e exótico de Meghan” e o Daily Mail (o jornal mais lido no país) dedicou uma primeira página ao tema com o título duvidoso “De escravos das plantações à realeza…isto é o que se pode chamar mobilidade social!”.

Houve avanços notáveis no Reino Unido em integrar as comunidades mestiças e negras desde os tempos altamente racistas dos anos 50 a 70. Por exemplo, um negro (Damon Buffini) foi o líder da maior empresa de private equity do país (Permira) até muito recentemente. Há um número diverso de figuras de topo na política, nas artes e no desporto que são negras ou mestiças (quem pode esquecer Mo Farah no atletismo ou Trevor MacDonald, o pivot da ITV News durante décadas). No entanto persistem dados preocupantes: enquanto a taxa global de desemprego no Reino Unido e só de 4%, nas comunidades negras e mestiças é mais de 17%; mais de 25% dos prisioneiros no Reino Unido são de raça negra ou mestiça e o rendimento médio dos agregados familiares negros ou mestiços é o mais baixo de todas as comunidades. Portanto na questão racial temos uma aposta brava e ate ligeiramente à frente da sociedade pela Casa Real Britânica, um sinal claro de compromisso com uma sociedade aberta, multi-racial, inclusiva.

O outro sinal notório desta união é que estamos perante uma mulher que não tem receio de ser independente e de expressar a sua própria opinião,  apesar de ser nova no meio real e no país em si. Foi Meghan quem famosamente chamou o Presidente Trump de “misógino” durante a campanha presidencial de 2016 e é ela que não tem medo de se definir como uma “feminista mais que orgulhosa”. Foi também Meghan que causou uma alteraçãao quase total no comportamento de Harry: passados vão os dias de grandes noitadas no Boujis em Chelsea e da adicção ao Burger King; agora Harry vive num regime de exercício diário e de dieta rigorosa de kale e quinoa, imposto pela health conscious Meghan. Ela própria já disse que vai continuar envolvida nos seus próprios projectos relacionados com causas dos direitos das mulheres em países subdesenvolvidos, debaixo do patrocínio das Nações Unidas, independentemente do casamento com Harry. O mesmo se aplica à questão de possíveis filhos – “gostaria de ter” dissse Meghan, mas não são uma prioridade absoluta como o foram para Kate, a esposa de William (o que se percebe também pela pressão que esta última enfrentava de gerar vários herdeiros directos).

Em resumo temos uma união multi-racial, em que uma plebeia independente, profissional, ex-divorciada e com as suas próprias opiniões casa com o quinto em linha ao trono britânico. Esta é uma mensagem potente dada pela Casa Real Britânica e que tem continuidade até nos detalhes do casamento do próximo 19 de Maio: 1,200 membros do público convidados a assistir, os noivos caminharão pelo seu próprio pé até à igreja, 200 membros de diversas caridades estarão presentes e até o próprio bolo de casamento vem de uma pastelaria na zona pobre de Brixton.

A questão chave para o futuro, à medida que o Reino Unido navega o seu período mais delicado de reinvenção desde a II Guerra Mundial, vai ser se esta nova geração de reais (William e Kate, Harry e Meghan) vai servir como um símbolo e locomotiva de rejuvenescimento e de vitalidade do país ou se pelo contrário se vao ver limitados a serem um simples instrumento de conforto nostálgico no meio de um declínio da marca global Reino Unido.

When Harry met Meghan podia ser um título de um filme. Podia ser apenas mais um casamento. Mas neste contexto é muito mais do que isso.

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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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