Apropriação cultural – não percebo, pronto

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Um conceito que por mais que tente não consigo entender é o de apropriação cultural. O racismo existe, sim, a discriminação de minorias e a exclusão dos que nos são diferentes (pela etnia, raça, classe social, nacionalidade, orientação sexual, religião, clube de futebol e um largo etc do que nos lembrarmos) também. Mas não consigo vislumbrar, por muito que me esforce (e até esforço), por que razão alguém vê um insulto no facto de uma mulher branca usar tranças à africana no cabelo ou o cabelo preso à latino-americana (e isto já deu azo a lutas entre equipas femininas de universidades americanas, denúncias em revistas de grande audiência, e um ainda mais quilométrico etc.).

Vejo sempre que usar elementos de outra cultura – seja em nós próprias, seja na roupa que vestimos ou na decoração de nossa casa – um tributo à estética dessa cultura que não é a nossa. Estamos, digo eu, a acolher o outro, a reconhecê-lo como bom e equiparado a nós – ou não o adotaríamos. Na verdade, durante séculos foi sinónimo de apreço e de vontade de respeitar a cultura alheia a adoção da estética e hábitos de determinada cultura.

Num mundo global, que sentido faz insistir na segregação estética? Tanto mais que já somos todos misturas de influências passadas de outras culturas. O khol que usamos para pôr um risco nos olhos veio do Oriente. A seda veio da China, bem como a porcelana. As espingardas foram levadas da Europa para a Ásia Oriental. A esmagadora maioria das línguas do mundo (exceto as línguas chinesas, o coreano, o japonês, o turco, o asco e mais meia dúzia) são línguas indo-europeias, com uma raiz comum milenar ainda hoje indentificável por palavras e pela gramática. Podia continuar por horas.

O último caso desta tonteria da apropriação cultural ocorreu nos Estados Unidos. Uma miúda foi ao seu baile de finalistas do secundário, usou um qipao (um vestido tradicional chinês) e colocou as fotografias no instagram. Evidentemente logo de seguida vários americanos enlouqueceram, vendo no uso do vestido uma afronta à cultura chinesa, à comunidade sino-americana, aos goblins, ao fantasma da imperatriz Cixi, aos restos mortais de Mao Zedong e mais ao diabo a quatro. A miúda, claro, foi insultada e enxovalhada nas redes sociais. (E estas loucuras e indignações e insultos nos novos media são outro assunto problemático do mundo atual, mas deixemo-lo por hoje.)

O curioso disto tudo é que a ofensa pelo uso do qipao só contaminou norte-americanos. Os chineses ficaram parvos com este sururu zangado. O jornal chinês China Daily reportou que na rede social chinesa Sina Weibo o vestido foi elogiado. Como é evidente, foi motivo de orgulho o uso de um vestido tradicional chinês por uma rapariga norteamericana. ‘Não é apropriação cultural, é apreciação cultural’, dizia um interveniente nesta magna discussão. ‘A cultura não tem fronteiras. Não há problema desde que não haja malícia’, proferia outra pessoa que não sabe que se deve indignar com ninharias. ‘Como chinesa, estou muito orgulhosa de partilhar a nossa moda com qualquer pessoa no mundo’, afirmava mais uma.

A polémica ganha contornos mais absurdos tanto quanto os qipao foram vestidos criados para promover a emancipação feminina nos anos 20 do século passado na China – por permitirem uma maior desenvoltura de movimentos e não necessitarem de tanto tempo para uma senhora estar pronta e vestida. Exatamente como as roupas simples de Chanel e Paul Poiret foram fundamentais para a libertação feminina no Ocidente. Em 2018 temos, portanto, um tipo de vestido criado para emancipar mulheres agora usado para atacar mulheres.

Espere, que vem mais. O qipao, afinal, foi ele próprio parcialmente inspirado nas silhuetas ocidentais, que marcavam mais as curvas do corpo feminino. (Como se escreve neste texto da The Atlantic, que também tem outras coisas importantes a dizer sobre a tontice da apropriação cultural.) Estamos, então, a discutir uma alegada apropriação cultural chinesa de algo que já foi uma (muito feliz) apropriação cultural ocidental.

Bom, tudo isto poderia ser apenas perda de tempo de gente com pouco que fazer e sem problemas graves na vida. Mas afinal tem importância. Porque estas acusações de apropriação cultural não são mais do que acrescidas restrições à forma como as mulheres, na sua vida privada e social, se vestem, se maquilham, se penteiam. Os conservadores já são ferozes nesta tentativa de controlo – o slutshaming das mulheres que não se vestem de forma modesta, a exposição das suas relações amorosas, um constante e obsessivo controlo do que fazem e de como se apresentam, tudo muito publicitado e comentado com grosseria nas redes sociais. A parte progressista da população, supostamente mais amiga das liberdades femininas, afinal vai pelo mesmo caminho e impõe outro tipo de restrições à aparência das mulheres. Não, obrigada.

(A imagem é de uma aguarela de uma senhora chinesa que está na parede de minha casa. Uma terrível apropriação cultural decorativa que eu cometo todos os dias há vários anos.)

 

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Mãe de dois rapazes e feminista (das duas características conclui o leitor inteligente que não quer exterminar os homens da face da Terra). Licenciou-se em Economia ao engano, é empresária, mas depois encarreirou para os Estudos Orientais, com pendor para a China. Foi blogger e é cronista do Observador. Considera Lisboa (onde nasceu e vive) a cidade mais bonita do mundo, mas alimenta devaneios com Londres e Hong Kong.

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