O cisma liberal – parte 1

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E o que faziam, até aqui, dois liberais quando se juntavam? Divertiam-se a discutir qual dos dois era o mais socialista. Hoje em dia já não discutem, muito menos sobre socialismo. Limitam-se a cortar relações. E se o tema é o feminismo, o corte de relações vem acompanhado de violência virtual (leia-se ‘desaminganço facebookiano acompanhado do vernáculo e de figuras de estilo até então desconhecidas’). Isto há muito deixou de ser um debate…

Quem não acompanhar nas redes sociais as várias correntes liberais, provavelmente nem se apercebe do ‘cisma’. E quem, como eu, não estiver literalmente à distância, provavelmente não está devidamente ‘protegido’. E protegido é o termo: a violência do debate há muito ultrapassou o que entendo ser razoável. Eu sempre pensei (sonhei?) que o cisma liberal ocorreria em torno de temas mais reveladores, como por exemplo os fundos Europeus (leia-se, ‘esmolas’), ou de alguma instituição perfeitamente inútil (leia-se AICEP). Mas não!… Também imaginei que nada distrairia os liberais do combate à associação criminosa que nos (des)governa. De novo, enganei-me. Enquanto o país está a saque, os liberais perdem tempo…

Não tenho dificuldade nenhuma em perceber porque é que tanto liberal se opõe às quotas: a possibilidade de determinar centralmente qual o número de mulheres com assento na administração de uma empresa privada é de causar calafrios a qualquer um. Mais assustadora ainda, para o verdadeiro liberal, é a possibilidade de uma entidade alheia ao indivíduo determinar sobre o uso que o indivíduo faz daquilo que deveria ser o último reduto de liberdade: a linguagem.

Contudo, também não tenho dificuldade nenhuma em entender a luta das mulheres liberais. Nem tenho, devo confessar, grande dificuldade em entender a ‘teoria do género’. No que toca à questão feminina, e das quotas em particular, parece-me que houve demasiado tempo (décadas, em abono da verdade) para que o assunto se tivesse resolvido (ou pelo menos melhorado) de forma espontânea. Sensibilizados para o assunto, os homens teriam ativamente procurado resolver o mesmo. Idealmente, as empresas, por exemplo, teriam tido o cuidado de nomear mais mulheres para cargos de direcção. Também no plano ideal, as diferenças salariais que ainda existem teriam sido progressiva e espontaneamente eliminadas (ou pelo menos reduzidas significativamente). Etc, etc, etc…

Infelizmente tal não aconteceu. E após décadas ‘a falar do assunto’, a situação não se alterou de forma que nos permita confiar na espontaneidade. Ficamos assim reduzidos a ter que viver com leis que, para mim, não passam de ‘regras de jogo’. Não me parece que por estabelecermos como regra alguma forma de paridade o mundo da liberdade vá acabar de forma súbita… E sempre me pareceu (mas posso estar enganado) que é isso que está em causa com as quotas: são uma espécie de ‘regras de jogo’, as quais não constituem nada de mais. Atentam à liberdade absoluta? Pois é evidente que sim. Representam uma espécie de engenharia social? Claro que sim. Do ponto de vista liberal, há justificação moral para as quotas, paridade, etc? Parece-me que não. E há alternativas? Claro que há. E conseguiram acelerar a história? Que eu saiba, não… E acelerar a história é bom? Para os liberais, não… E há ‘liberais puros’? Que eu conheça, não… E isso é importante? Para mim, não…

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Ainda cheguei a trabalhar durante vários anos antes de me tornar académico. Foi uma experiência interessante - até então nunca tinha perdido tempo na vida. Hoje em dia investigo (algumas horas por dia) e escrevo (nos intervalos do squash) sobre as origens do capitalismo moderno (nos séculos XVI e XVII). O tema específico a que me dedico é bastante obscuro, o que me permite auferir um salário sem dar muito nas vistas e, assim, viver uma vida sossegada. Há pelo menos duas editoras interessadas em publicar um livro que estou a escrever e que ninguém, felizmente, irá ler...

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