Brexit: to be or not to be

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De toda a séries de contradições profundas que afectam a vida política
britânica desde o referendo de Junho de 2016 talvez nenhuma seja tão
exemplificativa da cacofonia reinante como a recente demissão da
Ministra da Administração Interna, Amber Rudd, na sequência do
escândalo Windrush.
O caso tem origens no período 2010-16 em que Theresa May, então
Ministra da Administração Interna, inaugurou uma “política hostil” em
relação à imigração ilegal para o Reino Unido. Essa tinha sido uma das
bandeiras da campanha eleitoral dos Conservadores em 2010, por
oposição à política mais laissez-faire que os Trabalhistas (sobretudo com
Tony Blair) tinham operado quando no poder.
À medida que o país, profundamente afectado pela crise financeira de
2007-10, se inclinou para considerar a imigração como um dos seus
maiores problemas (uma das razões da popularidade crescente da
extrema-direita do UKIP até 2016) mais os Conservadores apostaram
numa politica musculada de controlo das fronteiras nao só por bondade e
serviço público mas obviamente pelo receio de perderem importante
espaço político à direita para o UKIP.
Para pôr essa política em prática e sobretudo para a tornar sonante aos
ouvidos cada vez mais sensíveis dos britânicos, May criou logo em 2010 o
objectivo extraordinariamente ingénuo de reduzir a imigração total para
as “dezenas de milhares” por ano em vez dos mais de 400,000 imigrantes
que chegavam em média por ano ao Reino Unido nos tempos do
Blairismo. Nao havia propriamente uma racional económica para o
número (famosamente a senhora May insistiu em incluir no target tudo e
mais alguma coisa, incluindo estudantes internacionais em universidades
inglesas, uma das maiores exportações do país, quando cerca de 95%
desses estudantes sai do país mal terminado o curso). Mas havia
certamente uma racional política: o apelo ao conservadorismo mais rural
e insular, no qual em larga medida o Brexit foi ganhando forma.
Amber Rudd, uma pessoa perfeitamente respeitável, da ala mais liberal e
urbana dos Conservadores (previamente uma banqueira nesse “antro” de
liberalismo global que se chama JPMorgan) e apoiante da permanência do
país na União Europeia, chegou ao Ministério da Administração Interna
quando Theresa May se tornou primeira-ministra, no turbulento Verão de
2016. Tendo defendido sempre uma política de abertura em relação à
imigração para o Reino Unido, o choque de Rudd deve ter sido
considerável ao se deparar com um departamento que já no Verão de
2016 estava constantemente na capa dos jornais por casos pouco
fundamentados de deportações ou pelas famosas 80 páginas de
formulários que na altura eram pedidas aos trabalhadores europeus para
adquirir um simples cartão de residência.
No entanto, a estóica Rudd, decidiu nessa altura deixar as suas
convicções liberais à porta do trabalho e por lealdade a May, ao partido, e
também por ambição pessoal, continuar a linha de May e não levantar
muitas ondas. Ganhou o rótulo de competente e até o direito de
representar May num dos debates das eleições legislativas de 2017, dado
que a senhora primeira-ministra é um pouco alérgica a qualquer forma de
contacto humano espontâneo. Para quem estivesse atento os sinais de
problemas no paraíso continuaram a aumentar, a começar pela famosa e
muito pouca inspirada ideia de Rudd no Outono de 2016 de obrigar as
empresas sediadas no Reino Unido a listarem os nomes de todos os seus
trabalhadores estrangeiros (uma ideia que foi rapidamente arquivada mal
veio a publico, porque soava definitivamente mais a 1938 SS que a 2016
Tory Blue).
O acto final da opereta da senhora Rudd veio quando o The Guardian
revelou que vários nacionais da Commonwealth vindos para o Reino Unido
há mais de 60 anos para ajudar à reconstrução do país no pós-II Guerra
tinham sido ou estavam em vias de ser deportados. Não porque
estivessem ilegais mas porque o Ministério da senhora Rudd e os arquivos
nacionais não tinham mantido os documentos que provavam a identidade
e proveniência desses cidadãos.
Seguiu-se uma comédia de erros em que a senhora Rudd compareceu
seis dias consecutivos no Parlamento para prestar um relato do que se
passou, cada vez mais contraditório e progressivamente mais
embaraçoso: primeiro que não sabia de nada, depois que já sabia mas
que ia evitar procedimentos idênticos no futuro, depois que nunca tinham
havido quotas para a deportação destes cidadãos e finalmente que
embora estas quotas existissem ela nao sabia de nada.
Quando confrontada com a revelação de uma carta em que ela própria
descrevia a May essas quotas nao restou alternativa a Rudd senão
demitir-se. May substituiu-a prontamente por Sajid Javid, descendente de
paquistaneses e um relutante apoiante da permanência do Reino Unido na
UE (um gesto semi-populista a acenar para todos os lados bem ao gosto
da senhora May) e por certo reza agora umas orações para que ele
consiga eliminar o assunto das notícias de vez.
O mais curioso no final desta saga foi a forte defesa de uma “emigração
plena, aberta e trans-global” (dixit) feita por Boris Johnson tanto na
reunião do governo como em frente às camaras televisivas (ele sendo o
principal candidato a, passe a expressão, degolar May politicamente). Ou
seja tivemos uma Remainer cosmopolita e global (Rudd) que alinhou por
puro interesse ou ingenuidade numa política nacionalista e semi-
xenófobica e ao mesmo tempo um Brexiteer nacionalista (Boris) apelando
a um cosmopolitismo ilimitado. Nem os Monthy Python produziram
melhor enredo.
O episódio ilustra as profundas contradições que se vivem no Reino Unido
desde 2016 e como é impossivel analisar a actualidade segundo o velho
prisma esquerda versus direita ou Conservador versus Trabalhista. O
próprio resultado das eleições locais desta semana mostra este
extraordinário estado de fluxo. Os Conservadores ganharam, como seria
esperado, os votos do velho UKIP (mais pro-Brexit e anti-emigração nao
pode haver) mas igualmente conseguiram impedir os Trabalhistas de
alcancar grandes ganhos em Londres e até conquistaram Brent (um dos
bairros mais cosmopolistas da capital britânica, graças ao faux pas anti-
semitista da oposicao). De igual modo os Trabalhistas perderam
importante vilas e cidades das Midlands (tradicional area Labour), talvez
porque a posição dos Trabalhistas versus o Brexit é tao clara e perceptível
como um livro do Heidegger, mas ao mesmo tempo ganharam a
cosmopolita e liberal Plymouth.
Segue-se neste mês de Maio uma decisao crucial para o governo: que
tipo de união aduaneira (ou ausência dela) vai o Reino Unido querer ter
com a UE depois do Brexit. O assunto tem ramificações em tudo, a mais
importante sendo o estatuto que a Irlanda do Norte vai ter no fim deste
processo. Ninguém com o mínimo de bom senso se arrisca a advinhar um
desfecho, sobretudo vendo o corrente (des)equilíbrio de convicções e
lealdades por todo o espectro político britânico.
Quo Vadis Britain? Podia ser uma canção dos Smiths.
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Ricardo Arruda, 43, estudou Ciências da Comunicacão em Lisboa e fez um MBA em Finanças nos Estados Unidos. Vive há mais de vinte anos entre os Estados Unidos e o Reino Unido e foi gestor em companhias financeiras tão variadas como a AXA, Merrill Lynch e AVIVA. Nos tempos livres gosta de fotografia, viajar, musica e ler livros de História. Continua a adiar a escrita do primeiro livro mas até lá vai ser o nosso correspondente em terras de Sua Majestade.

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