André Ventura, o candidato de extrema-direita às eleições presidenciais deste ano, não é um homem original. Vai buscar todos os seus estratagemas a Trump, sobretudo, e a Bolsonaro aqui e ali. Nem se incomoda que Trump tenha sido expressivamente derrotado há pouco tempo. Os últimos golpes de teatro são: invenções de falta de segurança nas urnas que guardaram os votos antecipados do último domingo; serem seguidos por uma carrinha amarela do Bloco de Esquerda (e, presume-se, por orks castanhos e elfos azulados também, ambos sem filiação partidária); exagerar lançamento de caixas de pastilhas elásticas dando-o como um apedrejamento.

Outra encenação copiada de Trump é o uso de insultos rasteiros aos opositores políticos. Houve recentemente rodada ambundante para todos os demais candidatos, mas – também pela cartilha do derrotado Trump – os mais nojentos foram reservados para as mulheres que são candidatas à Presidência da República. Ana Gomes foi epitetada de ‘contrabandista’ e ‘candidata cigana’ (dando carga pejorativa ao ‘cigana’). Com Marisa Matias foi consideravelmente mais ordinário. Já toda a gente sabe do caso: comentou a má aparência da candidata por usar ‘batom vermelho’ e, donde, ‘parece uma coisa de brincar’.

O insulto a uma mulher por usar batom encarnado gerou a onda #vermelhoemBelém, já coberta em todos os jornais nacionais e, até, alguns estrangeiros. Mulheres de todos os lados políticos colocaram fotografias com batom encarnado, algumas políticas de outros países fizeram o mesmo. Numerosos homens também aplicaram batom encarnado e se colocaram assim nas redes sociais. Foi um movimento bonito de unidade contra a boçalidade, a ordinarice e, sobretudo, contra o significado dos insultos ao batom encarnado.

O que me interessa neste texto não é a unidade das pessoas (de facto) de bem no repúdio aos insultos misóginos de (des)Ventura, apesar de ter sido bonito. Prefiro notar aquilo que o insulto em questão revela da ideologia do tal (des)Ventura e do partido Chega.

Começa pelo à vontade de usar insultos de ódio às mulheres numa campanha política. Uma candidata, para o candidato de extrema-direita, é um brinquedo sexual por usar determinado batom. Seja um brinquedo sexual humano seja uma boneca insuflável – o insulto cobria as duas possibilidades. É, desde logo, uma ideologia que não aprova a participação política das mulheres (execram a lei da paridade, por exemplo). A política é reservada para os homens – se repararem bem, os maiores apoiantes de (des)Ventura e do Chega são homens. As várias sondagens têm mostrado isso mesmo: a maioria do eleitorado desse partido é homens.

Tenho dito desde o advento do trumpismo que o núcleo mais fundamental da ideologia alt right é o machismo politicamente organizado. E tivemos quatro anos disso. Política feita no masculino, para atender às necessidades do eleitorado da masculinidade tóxica (e frágil). Que não aguenta o advento de mulheres independentes e muito competentes que, por um lado, lhes fazem concorrência nos bons cargos profissionais e, por outro, já têm demasiado poder económico para aceder ou manter a relações tóxicas com homens convencidos que vivem no século XIX. Muito poucas mulheres na administração Trump, ataque cerrado aos direitos das mulheres (ao acesso à contraceção, por exemplo), hostilidade agressiva face ao feminismo e às reivindicações feministas.

Nestas ideologias tóxicas, a política é o domínio dos homens, como sempre foi, as mulheres reservam-se para a esfera doméstica, para a maternidade e para as atividades cuidadoras, e os homens tratam dos assuntos sérios e pesados, aqueles que o espírito delicado das mulheres não aguenta. Donde, as mulheres que saem deste registo, e ousam participar e ter atividade política, têm de ser punidas com insultos cabeludos. Para estas aprenderem – e para se dissuadirem outras de terem a veleidade de também tentar uma carreira política. Trump reservada os insultos mais indigentes para as mulheres políticas, pelo que o seu imitador de fancaria faz o mesmo. É estratagema para arredar mulheres da atividade política.

Mas não só. O insulto de (des)Ventura foi um insulto sexualizado. Claro. Porque nesta direita também tem nas suas mais persistentes preocupações o controlo da sexualidade feminina. Diga-se que o desconforto com a sexualidade feminina não vem só da extrema-direita. É muito geral ainda por todos os lados políticos, mesmo nos que não o assumem. Em todo o caso, na extrema-direita é mais ou menos assumido.

Um batom encarnado – bem como maquilhagem ou roupa chamativa – dá a conotação de uma mulher carnal. E os extremistas de direita não gostam mesmo nada disso. Não gostam de mulheres que tenham vida sexual fora dos ditames estabelecidos pelas conservadoras religiões – ou, quer dizer, gostam: na verdade vêem com naturalidade a divisão do mundo entre mulheres castas para casar e mulheres que servem para ter sexo e dar prazer sexual aos homens, as prostitutas e as amantes. Mas esta categoria de mulheres, prostitutas e amantes, não conta para esta gente, os homens até fingem que são maridos virtuosos, pelo que interessa reservar um lote de senhoras castas, acima das pulsões sexuais, para as funções sociais.

Mais uma vez, as mulheres que se apresentam como seres sexuais, e com roupa e maquilhagem a condizer, têm de ser combatidas. O prazer sexual é também domínio dos homens. As mulheres – quer fiquem na categoria de castas ou de meretrizes – não podem ter nada que ver com esses assuntos tão pouco etéreos. Donde, a uma mulher com batom encarnado tem de ser dito que é simplesmente um brinquedo sexual, não uma pessoa com agência e sexualidade nos seus termos. Esta ideologia não sabe lidar com mulheres enquanto seres sexuais e que não existem para satisfazer terceiros, mas a si próprias.

Por fim, o batom encarnado tem uma longa tradição de associação aos combates feministas, desde as sufragistas. A maquilhagem também está associada ao empoderamento feminino, já que permitiu a muitas mulheres sustentarem-se com este negócio e a algumas até a enriquecerem. Já aqui escrevi do efeito do batom como estratégia das mulheres para obterem melhorias económicas durante as recessões.

O batom encarnado é, portanto, símbolo da sexualidade feminina, do empoderamento económico das mulheres e das lutas feministas. Não admira que os ultra-conservadores de direita (ou os de esquerda) odeiem tal objeto demoníaco. Hitler detestava mulheres que usassem maquilhagem – as únicas mulheres amantes de maquilhagem carregada que tolerava perto de si eram Magda Goebbels e as britânicas Unity e Diana Mitford – e, sobretudo, detestava batom encarnado.

Quando um político de extrema-direita insulta alguém por usar batom encarnado, não está só a fazer apreciações estéticas ou combate político mais rasteiro. Está a falar do fulcro central da sua ideologia, que é o controlo e a submissão das mulheres e o regresso a tempos ainda mais desigualitários e com a distribuição do poder ainda mais desvantajosa (que a atual) para população feminina. Não esquecer, portanto, a importância de votar contra quem atenta contra os nossos direitos (de participação e representatividade política, por exemplo) e as nossas liberdades (a sexual, desde logo).