“Ela é um bocadinho piegas, não é?”A saúde mental, pieguices e arroz doce.

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“Não caias num dos piores erros, o silêncio, a maioria vive num silêncio terrível. Não renuncies!” Walt Whitman 

“Sabes, quando tenho um ataque de ansiedade ou de pânico parece que vou ser engolida pela terra. Às vezes parece que vou ser engolida pelos pés. Outras vezes, de pernas para o ar, começando pela cabeça. Uma força que nos dilata os nervos, ficam aos pulos, trémulos. E posso estar, calmamente, no sofá a ver um filme. Pás. Do nada. E fico esgotada. E solto um uivo. Bolas”. 

A protagonista desta história é uma mulher que vive com ansiedade. Não falo da ansiedade pontual, possível a todos. Mas de uma ansiedade crónica que somatiza no corpo e na alma. Há muitos anos. Nem sempre percebi o que ela sentia. Muitas vezes achei que não seria assim tão importante, tão marcante, tão avassalador. Até porque, muitas vezes, não se mostra o que se sente. E não se quer ver o que não se mostra. Quando sabemos que alguém sofre de alguma perturbação mental, isso não nos diz muito mais sobre a vida dessa pessoa. Afinal, é das mulheres mais fortes que conheço. E hoje em dia percebo porquê. A superação, a constante luta, ainda que esgotante, deram-lhe uma capacidade de resiliência e uma força interior admirável. 

Tema delicado e (ainda) tabu, muito se tem falado da temática da saúde mental nesta época de pandemia. Depressão, ansiedade, ataques de pânico, transtornos obsessivos, burnout são palavras recorrentes na literatura nos dias de hoje. De facto, a incerteza quanto ao futuro, a necessidade de afastamento social, os riscos para a saúde e para a economia podem gerar sentimentos difíceis de gerir: tristeza, frustração, irritabilidade. Insónias, distúrbios alimentares, dificuldades de concentração têm sido habituais. E até podem ser considerados normais. Se o coronavírus é “Rei”, a ansiedade é “Rainha”. O que nos é pedido, a nós, aos peões: resiliência. E, talvez, ironicamente, paciência de chinês. 

Mas para quem vive com certas perturbações mentais e comportamentais há muito mais tempo do que o aparecimento do vírus, sabe que a normalidade do tema da saúde mental precede tempos em que as doenças mentais eram totalmente estigmatizadas. E talvez ainda sejam, mesmo num “novo normal”. Ainda são, afirmemos. 

“Às vezes sinto-me agoniada. Com náuseas. Tento sempre pensar se teria comido alguma coisa que me fez mal.” 

De acordo com a OMS, uma doença mental caracteriza-se por apresentar condições clinicamente significativas de alterações, continuadas ou recorrentes, do modo de pensar, do humor (emoções) ou por comportamentos associados com a angústia pessoal e/ou deterioração do funcionamento pessoal numa ou mais esferas da vida. Resultam na incapacidade de lidar com os desafios e rotinas comuns da vida. Impedem o desenhar de estratégias para lidar com as adversidades. E revelam sintomas e sinais específicos que perduram no tempo e causam grande sofrimento emocional.

Importante ressalvar que nem todas as alterações comportamentais denotam perturbação mental. E nem devem ser confundidas com características de personalidade nem estados de tristeza que resultam de eventos traumáticos pontuais. Pode-se sofrer de ansiedade ou angústia em virtude de circunstâncias específicas pessoais ou sociais. Todos nós estamos à mercê do sofrimento e em determinada altura da vida, podemos precisar de ajuda. Em caso de dúvida pedir ajuda. Sempre. O diagnóstico de uma doença mental apenas deve ser feito por alguém com competências nessa área. 

 “Dói quando ouves: Isto está tudo na tua cabeça. Deixa-te de pieguices. Isso são desculpas para não fazeres nada. É fraquinha, coitada. Não é uma doença a sério. Achas que ela tem cara de quem está com uma depressão? Deixa-te de fitas? É sinal de fraqueza”. 

É falso generalizar e afirmar que as doenças mentais são um sintoma de falta de força ou fraqueza. A maioria das doenças mentais dependem de uma série de fatores biológicos, psicológicos e sociais que podem contribuir para o aparecimento de doenças mentais: desde a predisposição ou vulnerabilidade genética, passando por problemas de saúde, traumas, perdas, stress, até à interação com outros fatores psicológicos, sociais, económicos e ambientais. Afetam pessoas de todas as idades, em todos os países, de todos os géneros.  

“Sabes, também, tenho dores no peito, nos braços e nas pernas. É uma dor difusa, difícil de explicar. Quando passa, sinto-me esmagada. Parece que me passou um camião por cima. Não traz bem-estar nenhum. Quando faço exercício e me doem os músculos é uma dor gratificante. Esta não. É frustrante.” 

Cuidar da saúde mental é tão importante como cuidar da saúde física. Vivem interligadas. A saúde mental é algo mais do que a ausência de perturbações mentais. A saúde mental não é o oposto da doença mental. É também a capacidade de usarmos todo o nosso potencial, vivermos num estado de bem-estar que nos permite tirar partido das nossas capacidades, lidar com as adversidades normais da vida e viver produtivamente em comunidade.

“E sabes aquela expressão coração que não vê é coração que não sente? Às vezes o meu coração dispara. Parece que vai sair pelo peito. Ou melhor pela boca. Mas nunca sai. Isso eu já sei. Fica no seu lugar.” 

O que não compreendemos, o que não vemos, o que não sentimos, estigmatizamos. 

Ter a consciência da frequência das perturbações mentais e educar e sensibilizar para a saúde mental deveria ser imperativo para reduzir o estigma e a discriminação, fomentar o uso dos serviços de saúde mental, divulgar as opções de cuidados disponíveis e conseguir uma maior aproximação entre a saúde mental e a saúde física. 

O que tem então a saúde mental e ver com arroz doce? Convido-vos a conhecer o projeto ManifestaMente e o seu Kit Básico de Saúde Mental, uma sessão informativa online de 90 minutos, onde, num primeiro módulo, através da receita do arroz doce, se reflete sobre os ingredientes fundamentais para uma boa saúde mental. Cada um tem que encontrar a sua própria receita: com ovos ou sem ovos, açúcar branco ou mascavado, canela ou sem canela, quente, morno ou frio. E principalmente pedir ajuda. 

É possível sofrer de perturbações mentais e viver com qualidade. A doença mental por si só não impede as pessoas de desempenharem o seu papel na sociedade, nem de viverem uma vida plena de significado. 

“Aceitei que não podemos controlar tudo. Pedi ajuda. Não procurei, pedi. Foi fundamental. Muitas vezes não se pede ajuda por orgulho ou vergonha porque pode custar admitir que estamos em sofrimento e não conseguimos “dar a volta” sozinhos. Mas não vale a pena ficar sozinho em sofrimento à espera que passe quando há ajudas possíveis. Com tanto por do sol para ver, tanta beleza para disfrutar, tanto espanto que nos faça brilhar os olhos. Como diz o Poeta: aprender a reencontrar o espanto”.

Imagem de Exposição “Pestanudas” de Patrícia do Amaral. Lx Factory, 2020.

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