A pornografia enfraquece o movimento #MeToo

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O movimento #MeToo luta contra o assédio e agressão sexual, rejeitando a ideia de que as mulheres existem para o prazer sexual dos homens.

Mas, juntamente com o crescente sucesso deste movimento, a indústria pornográfica continua a prosperar, apresentando imagens explícitas que sexualizam exatamente essa ideia – que as mulheres existem para servir os desejos dos homens, quaisquer que sejam esses desejos, ignorando a humilhação e sofrimento impostos às mulheres.

A contradição é óbvia: enquanto os homens são responsabilizados por usar o seu poder para manipular e abusar sexualmente de mulheres, a indústria da pornografia continua a socializar os homens nesse mesmo comportamento. Chegou a hora do movimento #MeToo – e do feminismo em geral – fazer da crítica pornográfica parte do projeto de acabar com a violência contra as mulheres.

A sociedade dos EUA está inundada de entretenimento e publicidade que apresenta as mulheres como objetos sexuais, e em nenhum lugar a objetificação sexualizada é mais intensa do que na pornografia. Isso importa? Sim, por razões óbvias: as imagens da mass media têm um papel importante na formação da cultura contemporânea, e as empresas com fins lucrativos moldam as imagens da mídia. Nunca mudaremos as normas culturais que potenciam a violência sexual, enquanto uma indústria multibilionária produza imagens que socializam homens e rapazes e vejam meninas e mulheres como vítimas legítimas da exploração e abuso sexual masculino.

O movimento #MeToo não deve ignorar o problema da pornografia.

No último meio século, todas as pessoas sabem que a indústria da pornografia se expandiu dramaticamente, especialmente online. Os sites de pornografia recebem mais visitantes por mês do que o Netflix, a Amazon e o Twitter combinados, com o Pornhub a facturar 33,5 bilhões de visitas em 2018. O Pornhub gaba-se de ser “como se as populações combinadas do Canadá, Polónia e Austrália visitassem o Pornhub todos os dias!” Além disso , a pesquisa descobriu que os jovens estão cada vez mais expostos à pornografia – intencionalmente ou por acidente – através do Snapchat e Instagram, que se estão a tornar portais para o aumento do uso de pornografia explícita entre rapazes adolescentes.

O que as pessoas podem não saber é que as práticas sexuais que se tornaram padrão na indústria – penetrações múltiplas de uma mulher por mais de um homem ao mesmo tempo, sexo oral agressivo ao ponto de sufocar a mulher e muitos cenários e linguagem abertamente racistas – intensificaram a mensagem de domínio masculino. À medida que essa crueldade com as mulheres se aprofunda, o uso dessas imagens por meninos e jovens tornou-se tão rotineiro que a pornografia é a educação sexual padrão para os Estados Unidos contemporâneos e grande parte do resto do mundo.

Uma ressalva: reconhecer que um género da mass media como a pornografia tem um papel na formação da imaginação sexual não significa que a pornografia “cause” assédio e estupro. A pornografia não é o único lugar onde rapazes e homens são treinados para controlar as mulheres por prazer sexual. Mas estudos mostram que é uma componente essencial desse treino para muitos, e ignorar essa realidade é perigoso.

Outra ressalva: criticar a indústria pornográfica não é um ataque às mulheres que praticam pornografia, muitas das quais lidam com sérios danos psicológicos e físicos causados ​​pelos atos sexuais rotineiros que o seu corpo é obrigado a sofrer. Uma crítica da indústria faz parte de uma contestação feminista ao abuso de poder dos homens em todas as suas formas.

Com a crescente consciencialização da natureza corrosiva do domínio masculino quotidiano e da supremacia branca, por que há tão pouco debate honesto sobre esta inundação de imagens misóginas e racistas? Por que é que as pessoas que exprimem preocupações são rapidamente rotuladas de pudicas ou anti-sexo? Por que é que tantas pessoas têm medo de trazer uma crítica da pornografia para a conversa sobre o comportamento sexual abusivo dos homens?

A maioria dos homens rejeita o uso de coerção e violência para forçar as mulheres a fazer sexo. Graças em grande parte ao movimento #MeToo, mais homens estão a examinar as suas vidas e a modificar o seu comportamento quando desafiados por mulheres. No entanto, menos homens estão dispostos a explorar como a pornografia vai ao cerne da maneira como experimentam o prazer sexual, através de um sentimento de poder e controle. É mais difícil convencer os homens a abandonar os orgasmos rápidos e aparentemente fáceis que a pornografia fornece. (O nosso foco é nos homens heterossexuais, mas essa preocupação com a socialização também pode se aplicar à pornografia gay.)

As mulheres heterossexuais usam pornografia, mas em taxas muito mais baixas, e muitas das mulheres que se opõem às imagens permanecem caladas. Essa hesitação estará enraizada no medo do que os homens das suas vidas podem estar a assistir? Os homens geralmente escondem o uso de pornografia das parceiras e as mulheres geralmente não querem saber o que esses homens estão a consumir.

A indústria da pornografia quer que tenhamos medo de falar. Os produtores de pornografia cercam sua misoginia e racismo com banalidades sobre liberdade de expressão e, como qualquer indústria, gastam dinheiro em relações públicas e lobby para proteger os seus lucros.

Não apoiamos a censura, mas defendemos uma abordagem que defina a questão como uma crise de saúde pública, e não moral. O que sabemos da pesquisa é que o consumo de pornografia entre homens não é um problema individual – é social e, como tal, requer uma resposta colectiva. (Outros movimentos que utilizaram com êxito uma estrutura de saúde pública incluem beber e conduzir, fumar e síndrome do bebé sacudido.)

E encorajamos outras pessoas a levantarem a voz para desafiar a celebração da indústria pornográfica do domínio masculino sexualizado. A rejeição desse domínio na pornografia provem da mesma fonte que a rejeição de assédio e da agressão sexual – uma exigência de verdadeira liberdade e autonomia para as mulheres, o que torna possível uma vida mais rica e gratificante para todos.

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Gail Dines, professora emérita de sociologia e estudos femininos na Wheelock College, em Boston, é presidente e CEO da Culture Reframed. É a autora de Pornland: How Porn Hijacked Our Sexuality.

Robert Jensen, professor emérito da Escola de Jornalismo da Universidade do Texas, é autor de O Fim do Patriarcado: Feminismo Radical para Homens e Getting Off: Pornography and the End of Masculinity.

Tradução livre para português autorizada pelos autores. Artigo disponível em: https://medium.com/@robertjensen/pornography-undermines-the-metoo-movement-d7008f24424c

5 COMENTÁRIOS

  1. ahhh, haaaaa, dahhhh… desculpem? pornografia? vocês vem pornografia para falarem de pornografia? e já agora… já foram a um clube swinger? e que tal a uma vivenda swinger? Vocês acabaram de dizer que retratam todas as mulheres? Quem são vocês para isso? A sério? Devo de ter andado com gajos até hoje e pensava que era mulheres…Era o que faltava é os machistas… e as feministas também.

  2. O que escreveu não faz sentido nenhum! A pornografia gay tem exatamente os mesmos comportamentos em muitos dos vídeos: subjugação e humilhação de um parceiro pelo outro, múltiplas penetrações, insultos, cuspidelas, gangbangs, entre outros. Então isto também é uma menorização da figura masculina? Ou dos homossexuais? Não! É pornografia! Parem com essa mania obsessiva de que tudo é um ataque às mulheres, está a tornar-se ridículo!

    • Boa noite, Miguel Madeira. Obrigada por nos vir dizer o que fazer (parar não sei o quê), que nós precisamos muito das suas orientações, e explicar-nos o que é ou não ataque às mulheres. Sendo homem, de certeza sabe muito melhor que as mulheres o que é um ataque às mulheres. Percebe perfeitamente a diferença que implica contacto físico entre duas pessoas de igual força física ou de força física muito díspar. Leu com toda a certeza extensivamente sobre os efeitos da pornografia. Quanto ao adjetivo ‘ridículo’ que usou, eu dirijo-lhe o ‘perigoso’. São perigosas as pessoas que reputam de ridículas as denúncias de discriminação e violência contra mulheres que são feitas aqui na Capital Magazine. E nós não permitimos apologia de violência ou discriminação contra quem quer que seja neste espaço.

  3. “A contradição é óbvia”

    A contradição só poderá existir para quem veja a questão do #MeToo como uma questão de opressão das mulheres por homens em vez de uma questão de opressão dos subordinados por pessoas em posição de poder.

    E mesmo que vejamos a questão de uma perspectiva homem/mulher, será que a pornografia costuma retratar sexo não consentido (refiro-me a “não-consentido” dentro do universo ficcional da obra pornográfica), que é o que penso que estamos a falar?

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