UMA TARDE DE VERÃO COM AGUSTINA

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“O preto só fica bem às mulheres de 20 anos”

 

Tive a sorte de ter tido a atenção da Agustina Bessa-Luís quando fiquei desempregada. Não por acaso, ela, amiga de uma tia minha, de uma espontaneidade e graça imensas, empenhou-se em tentar encontrar um trabalho para mim. Fez telefonemas e escreveu cartas. Disse-me que lhe fazia “impressão” como alguém qualificado (no caso, eu) estivesse sem fazer nada. Mal ela sabia, à época, que há dezenas, senão centenas de jornalistas que deixaram de trabalhar. A nossa amizade foi imediata e sem cerimónia, como são todas.

Porém, foi demasiado breve. Depois de ter o AVC, eu só sabia de Agustina pelo marido. Com todo o respeito, não era a mesma coisa. Porque falar com a própria, nem fosse apenas por telefone, era como ser abençoado com um raio de sabedoria e graça. Ela era sábia. Divertida e perversa.

Num dia de Verão, em Lisboa, telefonou-me a dizer que estava um pouco insegura para ir sozinha ao lançamento de um livro. A convalescer de uma gripe, pediu-me para eu acompanhá-la. Disse logo que sim.  Apesar de não sermos íntimas (eu tratava-a por “senhora dona Agustina”), não era pessoa com quem se pudesse ficar nervosa. Quem já a leu, sabe que daquela cabeça vêm os mais inesperados enredos e perversos pensamentos.

Mesmo assim, defendi-me do meu estatuto de acompanhante com umas calças e blazer pretos, a achar que, desta forma, não me “comprometia”, como é usual dizer-se. Bati-lhe à porta e Agustina apareceu num vestido de tons florais. Estava muito bonita e disse-lhe: “parece uma senhora inglesa”. Já no carro, explicou-me que usava muito as flores e cores claras. Depois, olhou pela janela e apontou para uma rapariga nova toda de preto: “O preto fica bem às mulheres de 20 anos”, acrescentou. Eu estaria, por isso, fora de tom. Mas aquilo soou-me como um conselho, não como uma repreensão maldosa. E foi sobre roupa que falámos até à chegada ao hotel.

Uma vez entradas, o director do hotel recebeu-a como uma rainha. Outras escritoras vieram cumprimentá-la, com uma “adoração” que até a mim me pareceu excessiva. Percebi que tinha prazer em ser cumprimentada, mas o que gostava mesmo era de observar o comportamento dos outros. Pediu-me que eu encontrasse um sítio onde pudesse ver as pessoas, mas sentada. O dia estava quente e, com a idade dela, ninguém se tinha lembrado desse pequeno “detalhe”. Sentei-a e fui buscar-lhe uma bebida.

Já sentada ao lado dela, um homem alto e bem vestido aproximou-se para dizer quanto gostava de a ver. Mal virou costas, disse-me assim: “Quem é este loiro tão desenxabido?” É claro que dei uma gargalhada. Porque os olhos dela traduziam uma verdade que só ela sabia explicar. Aquilo era um mise-em-scéne algo ridículo, que achou exagerado. Mas não mo disse dessa maneira. Foi muito mais literária: “este sítio (a sala) deve ter sido uma cavalariça, cheira a cavalariça”. Era este a grandiosidade dela: tinha os sentidos abertos para a literatura. Ou para a procura literária de verdade. Mais tarde, perguntei se naquele palácio tinham existido cavalos. Agustina tinha razão.

Tenho a sorte de ter em minha casa, numa moldura, a carta que me escreveu quando morreu a minha avó. É uma carta sensível e bonita. Pensada. Talvez Agustina tenha morrido mas os seus pensamentos só morrem se deixarmos de os ler.  Já tenho saudades dos livros dela que não li. Mas por ter sido tão minha amiga, fico aliviada por ter saído de uma vida sem sentido, enfiada em casa sem falar nem ver ninguém.

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O meu único compromisso é com a verdade. Desde os 10 anos que quero ser jornalista. Licenciei-me em comunicação social e fiz a tarimba toda. Tive a sorte de trabalhar com quem mais admirei: a Margarida Marante. Com ela, descobri o prazer do debate e do confronto de ideias. E a conjugar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Uma era preciosa do jornalismo, cada vez mais difícil de fazer, apesar que muitos o neguem. Aos 47 anos, sinto-me salutarmente desconfortável com muita coisa. Receio a censura das ideias e dos actos pelo medo de outras ditaduras modernas: a do dinheiro sem valores e a da felicidade descartável. Politicamente, não consigo definir-me. Sou um híbrido geopolítico. Cresci no Porto mas migrei para Lisboa há 25 anos, de onde só sairei se for para o campo. Autora da rúbrica Defeito de Fabrico

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