Luto: o tempo que a cabeça demora a convencer o coração

0
Imagem de Isabel Santiago

Perdermos o nosso amor para a morte é uma coisa impensável. Impossível até que o nosso cérebro, confuso, acelerado, louco de pensamentos e memórias recentes e passadas, convença o coração, o estômago, as pernas e os sentidos que a pessoa não está. Uma pessoa em luto fica doida e era bom que as pessoas compreendessem isso. Se o amor não tem lógica, imagine-se a perda dele. É uma prova maquiavélica, não-natura, pois mais que nos repitam: “a vida é assim”.

Durante quase dois anos, era-me insuportável achar que a “vida” era “assim”. A vida era morte? Talvez, mas não estamos preparados para isso. Não somos budistas nem temos rituais hindus. E mesmo aqueles avós e tias que enviuvaram cedo faziam parte de um romance. Até nos juntarmos a eles e elas e acreditarmos que não fomos nem os últimos nem os primeiros a levar com o “raio” que nos corta a existência e sentido da vida.

A morte troca-nos os órgãos de lugar, põe-nos num piloto automático, também ele confuso. Enfim, que nos estilhaça a vida tal como um copo caído no chão. A nossa aparência pode ser a de uma pessoa, mas somos uns zombies desfeitos, a tentar cumprir o quotidiano, ou parte dele, como se seguíssemos um manual. A dor, imprevisível na forma, duração, intensidade, passa a ser a nossa fiel companheira.

Quando o meu noivo morreu, eu tinha de pensar como se andava (é uma perna e a seguir a outra passa à frente dela, e trocas para a outra), ia para o duche e dizia para dentro: “a seguir ao champô, pousa-se o frasco, lava-se a cabeça com a água até sair e depois pega-se no frasco do amaciador”. Nesses dias, era como uma criança de 6 ou 7 anos a quem os pais experimentam mandar os filhos fazer um recado simples ou tomar banho sozinhos. E é incrível, acreditem, como conseguimos fazer as coisas mais comuns e simples durante os meses de sofrimento. É que não é só o outro que morre. A condição de sobrevivente é irmã da morte durante pelo menos dois anos.

Só ao fim de dois anos é que percebi (ou aceitei, para usar a linguagem dos psicólogos) que o Miguel não voltava. Até lá, havia uma esperança estranha e talvez protectora que as coisas voltassem ao sítio. Mesmo quando já tinha percebido que não sabia como era possível chorar tanto. Chora-se tanto que ao chorar pensamos que não é possível que se chore tanto.

A minha experiência trouxe-me amizades muito fortes. E ainda traz. Sempre que sei de alguém que fica viúva e viúvo cedo demais, corro para ela. Não quero que ela sofra mas sou incapaz de lhe mentir. Quero que a pessoa conte comigo e quero que acredite que, como me disse uma amiga da minha mãe (uma das pouquíssimas pessoas que me disse alguma coisa com um “futuro” sentido): “tenha esperança que o sofrimento se transforme em carinho, com o tempo”. Falou certo: tempo e transformação. Os dois conceitos a que nos podemos agarrar para continuar com essa cicatriz na alma.

É muito estranho que a vida continue. Mas continua. Só que não é logo. É preciso que todos percebamos isso. Se é que queremos mesmo ajudar. Já passaram quatro anos e meio e sonhei com ele: “Porque é que me fizeste isto?”

Artigo anteriorQuando é que acordamos para o problema da natalidade?
Próximo artigo28 novembro | The Secret Pitch
Avatar
O meu único compromisso é com a verdade. Desde os 10 anos que quero ser jornalista. Licenciei-me em comunicação social e fiz a tarimba toda. Tive a sorte de trabalhar com quem mais admirei: a Margarida Marante. Com ela, descobri o prazer do debate e do confronto de ideias. E a conjugar a máxima liberdade com a máxima responsabilidade. Uma era preciosa do jornalismo, cada vez mais difícil de fazer, apesar que muitos o neguem. Aos 47 anos, sinto-me salutarmente desconfortável com muita coisa. Receio a censura das ideias e dos actos pelo medo de outras ditaduras modernas: a do dinheiro sem valores e a da felicidade descartável. Politicamente, não consigo definir-me. Sou um híbrido geopolítico. Cresci no Porto mas migrei para Lisboa há 25 anos, de onde só sairei se for para o campo. Autora da rúbrica Defeito de Fabrico

Deixe um comentário. Acreditamos na responsabilização das opiniões. Os comentários anónimos ou de identificação confusa são apagados, bem como os que contenham insultos, desinformação, publicidade, contenham discurso de ódio, apelem à violência ou promovam ideologias de menorização de outrém.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.